Transversalidades Latinas – Sob o Céu da Patagônia – parte I

Entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011 percorri mais de 11.500 quilômetros pelas estradas sul-americanas com outros três amigos. A expedição Sob o Céu da Patagônia cruzou trechos do Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, sendo que pouco mais de três quartos desta viagem (cerca de 9.000 quilômetros) foram rodados nas bem conservadas estradas Argentinas. Atravessamos treze das vinte-e-três províncias do país, e estivemos nas capitais de oito delas. No Chile, nossa passagem mais apressada nos levou a povoações menores e mais periféricas (embora não menos férteis).

Ainda que a expedição tivesse como principais objetivos algumas das mais impressionantes paisagens naturais da américa do sul, nos dias que passamos percorrendo aglomerados urbanos dos mais variados tamanhos, extensões e densidades demográficas, tentei registrar as intervenções que testemunhei em minha passagem, embora a maior parte delas não tenha sido capturada por questões circunstanciais que me impediram de utilizar a câmera.

Durante esta jornada pude confirmar que a presença de intervenções nas superfícies públicas e fronteiriças do meio urbano é um fenômeno comum à praticamente todas as manifestações da urbanidade na paisagem social humana, desde os pequenos e quase despovoados vilarejos até as superpopuladas megalópoles, algo que me parecia evidente, mas que eu nunca tivera a chance de comprar pessoalmente.

Como a extensão geográfica da expedição atravessou uma enorme variedade de diferentes ambientes sociais, pude testemunhar uma grande diversidade de manifestações diferenciadas de obras de intervenção urbana, desde a simples “pichação”, geralmente de cunho político, até os mais detalhados painéis em grafite. Transbordando de elaboradas superfícies representativas, as grandes metrópoles, como Córdoba, Mendoza e Santa Fé, apresentavam os panoramas mais ricos e variados.


Embora sejam também os espaços onde as manifestações meramente invasivas, territorialistas e individuais, como tags pessoais e de gangues, aparecem com maior frequência, a enorme variedade de intervenções proporciona uma visibilidade mais ampla para essas manifestações, e provavelmente uma aceitação maior.



Curiosamente, foi nas povoações menores, como Esquel, Perito Moreno, Pucón ou El Calafate, que tive a oportunidade de testemunhar o maior número de intervenções cujo discurso apresentasse uma preocupação social ou política, em parte talvez devido a rejeição natural dessas comunidades às intervenções de cunho mais pessoal.


Confira o final de meu relato e mais algumas imagens no próximo post do projeto urbanogramas.


