observações sobre as artes de intervenção urbana

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Intervenções na rede – 09.2011

Intervenções Na Rede - 09.2011

Links interessantes sobre intervenções urbanas.

Choque Cultural .

Criada inicialmente como uma editora para impressos culturais de baixo custo, a galeria Choque Cultural é um inovador espaço alternativo de exibição que tem como principal objetivo aproximar o público jovem das artes plásticas, incentivando o colecionismo, produzindo conhecimento e promovendo intercâmbios. Fundada em 2004, o espaço tem como foco a exposição de obras e de artistas urbanos ou cuja temática explore as manifestações das artes de intervenção urbana em geral, e suas iniciativas de intercâmbio já levaram centenas de artistas brasileiros para o exterior e trouxeram inúmeros artistas internacionais para o brasil, criando um espaço de intenso diálogo entre os produtores e consumidores da arte urbana.

Nucleo de Arte Urbana .

“n.a.u. = projeto de vanguarda arquitetônica em uma estrutura composta por contêineres marítimos que transportará, a locais exclusivos, um novo conceito de experimentação.
n.a.u. = espaço multicultural para manifestações artísticas com uma visão da arte urbana.
n.a.u. = única estrutura itinerante no mundo que integra arte e entretenimento em contêineres marítimos.
n.a.u. = ocupação cultural + intervenção urbana que será transportada a 4 capitais brasileiras ( São Paulo, Gramado, Porto Alegre e Rio de Janeiro).”
Confira.

Alexandre Orion .

Sito oficial do paulistano Alexandre Orion, autor de intervenções antológicas como o grafite reverso ossário e as emblemáticas fotocomposições da série metabiótica.

. Graffiti Brazil .

Blog do fotógrafo carioca PAPARAZZI, que registra graffitis brasileiros há mais de seis anos e publica fotos suas com o objetivo de expôr um pouco do cenário nacional para o mundo. O Blog também aceita fotos enviadas por artistas.

. Stencil Brasil .

Aparentemente inativo há algum tempo, este site apresenta imagens, textos e informações interessantes a respeito da história da arte urbana brasileira, além de inúmeras referencias sobre artistas e links de arte de rua.


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Proibido Calar Catarses

Proibido Calar Catarses

Algumas imagens da versão mais recente de uma de minhas primeiras intervenções.

Proibido Calar Catarses - 01

Proibido Calar Catarses - 02

Proibido Calar Catarses - 03

Proibido Calar Catarses - 04Proibido Calar Catarses - 05Proibido Calar Catarses - 06

E algumas reações interessantes a ela:

Nesta página (na entrada de 08.04.05) a referência online mais antiga que eu encontrei;

Aqui um acaso que me deixa orgulhoso;

aqui uma reação infeliz, ainda que cômica e ironicamente próxima do que eu esperava provocar (tirando a estapafúrdia leitura política do texto).

Não sei se existem outras imagens-leituras-referencias, mas ficam aqui os registros mais recentes de meu acervo particular.

Proibido Calar Catarses - 07

Proibido Calar Catarses - 08

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Intervenções na rede – 07.2011

Intervencões na Rede - 07.2011

Links interessantes sobre intervenções urbanas:

. Os Gemeos .

Site oficial dos irmãos gêmeos Gustavo e Otávio Pandolfo, dupla de grafiteiros cujo reconhecimento internacional ajudou a projetar o Brasil no cenário mundial da arte urbana. Com mais de vinte anos de atuação, esses paulistanos da segunda geração do grafite basileiro já enfeitaram muros do mundo todo, tendo atuado em países como Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Alemanha, Austrália,  EUA (Nova York, Los Angeles e São Francisco), China, Japão, Cuba, Chile e Argentina. Um referência essencial para se compreender a história do grafite no Brasil.

artbr .

O artbr é um portal criado pelo grafiteiro e artista plástico multimídia Rui Amaral, criador do Bicudo (personagem do grafite brasileiro mundialmente conhecido que recentemente recebeu uma versão Toy Art), um dos expoentes da segunda geração do grafite paulistano, contemporâneo dos Gemeos e fundador do grupo Tupynãodá, cujos integrantes foram os primeiros a grafitar à luz do dia. No site é possível encontrar diversas notícias sobre eventos do meio e inúmeras referências a obra e a atuação de Rui Amaral no cenário da arte urbana.

Intervencao Urbana [Blog] .

Blog da loja de buttons Intervenção Urbana, que transporta um pouco da cultura de rua para o universos desses curiosos acessórios de moda. O blog funciona como um excelente espaço de divulgações de eventos, acontecimentos e notícias do cenário da arte urbana em todo o Brasil.

Coletivo Intervenções .

Criado pelo publicitário Leandro Ogalha, o Intervenções é um coletivo virtual aberto cujo principal objetivo é promover a arte e a cultura urbana, formado por pessoas de diferentes cidades e áreas de atuação profissional e artística. Apresentando desde notícias rápidas sobre o cenário e intervenções pontuais até textos mais amplos e abrangentes, o site chama atenção pelo seu conteúdo variado e pelas matérias bem escritas. Vale a pena conhecer.

. CartelUrbe . Street Art . Fixacao Proibida .

Três blog interessantes para quem quer conhecer um pouco mais sobre a cena da intervenção urbana dos nossos amigos lusitanos. Como a maior parte dos blog sobre o tema, quase todo o conteúdo é voltado para a publicação de fotos e vídeos de intervenções e divulgações de eventos da cultura urbana locais. Interessante é perceber o quanto o cenário “local” por lá se manifesta em um espaço de fronteiras expandidas, abrangendo por vezes também as manifestações espanhola, francesas e até britânicas, em um intercâmbio cultural que, de continental que somos, aqui só se manifesta dentro das nossas próprias fronteiras.


O Olho da Rua – uma rede social para a cultura urbana

Olho da Rua - Entrada do Site


Olho da Rua - Entrada do Site
Tela de entrada d’O Olho da rua



Ao longo da última década o ciberespaço foi invadido por diferentes modelos e inúmeras plataformas de publicação e compartilhamento de informações. Algumas, como as mais conhecidas e utilizadas redes sociais Orkut, Facebook e MySpace ou o mecanismo de microblogging Twitter, foram tão bem sucedidos em suas táticas para adquirir novos usuários que possuir uma conta em um ou (o que certamente é mais comum) vários desses serviços tornou-se algo praticamente tão obrigatórios ao internauta mais assíduo quanto ter uma simples conta de e-mail.

Muitas outras dessas plataformas (a grande maioria, na verdade) como o SciSpace, rede social colaborativa inteiramente voltada para a troca de informações entre cientistas, ou a deliberadamente segregacionista BlackPlanet, uma das primeiras e mais antigas redes sociais ainda ativas e cujo público principal (inicialmente a comunidade daqueles que os norte-americanos chamam de afro-americanos, muito mais negros, dermatologicamente falando, do que os afro-brasileiros) seria a comunidade de pessoas afro-descendentes ao redor do mundo (característica não tão fácil de determinar com precisão, como nós aqui sabemos bem), tornaram-se sucessos silenciosos (a BlackPlanet teria alcançado a marca dos 20 milhões de usuários em 2008) devido principalmente ao enorme potencial de público que tinham e às escolhas acertadas de seus criadores em relação às formas de captar a antenção deste público, mas também desconhecidos por restringirem-se a setores bastante específicos e auto-referenciativos da sociedade contemporânea.

O Olho da Rua - página inicial (logado)No dia 11 de março deste ano entrou no ar O Olho da Rua, a primeira rede social do brasil (e até onde eu sei, do mundo) voltada exclusivamente para a cultura de rua e a intervenção urbana. Desenvolvida pela Retina Comunicação e lançada durante o evento Sopa de Letras, em Guarulhos, a nova rede conta com quase todos os aplicativos mais comuns encontrados nas suas semelhantes, permitindo que o usuário adicione amigos, crie grupos e álbuns de fotos, divulgue mensagens entre aqueles que estão em sua rede, visualizem os usuários que estão online e conversem com eles através de um chat. O sistema do site (aparentemente desenvolvido em XHTML com Java) também possuir integração com o twitter, botão de compartilhamento para outras redes e aceita a postagem de vídeos de forma simples e ágil (o vídeo tem que estar hospedado em outras plataformas, mas o sistema suporta a maior parte delas e basta postar o link do vídeo que ele se encarrega do resto). Com tudo isso, O Olho da Rua parece ser hoje o espaço virtual mais apropriados para a troca de ideias, de trabalhos e mesmo a organização de eventos coletivos entre artistas de rua brasileiros.

Olho da Rua - Perfil do usuário

Mas como toda plataforma jovem, a rede O Olho da Rua também tem os seus problemas, alguns pequenos, outros mais preocupantes. Problemas técnicos, como códigos que surgem no lugar dos textos, imagens do layout que não carregam e mesmo o uso de fontes sem acentuação, atrapalham a navegabilidade, embora não comprometam a experiência por completo (vale deixar claro que só acessei a rede através das versões mais recentes e atualizadas do FireFox e do Google Chrome, baseados e PCs com sistema Windows).  Talvez a ausência mais sentida, e provavelmente a falha no planejamento do sistema que mais chances tem de afastar os novos usuários, seja a de um mecanismo de ajuda, tanto de uma forma centralizada, com um FAQ e uma possível maneira de contactar os administradores, quanto em cada passo ao longo dos processos de cadastramento de usuário, criação e compartilhamento de conteúdo. Os criadores d’O Olho da Rua parecem ter assumido que todos os seus possíveis usuários seriam pessoas totalmente versadas e experientes no uso das tecnologias de redes sociais e que nunca precisariam de uma ajuda. Caso uma falta como essa não seja suprida, a rede corre o risco de perder vários possíveis usuários que não se sintam muito seguros ao tentarem fazer parte dela, ou que desistam de frequenta-la logo no início por não saber como utiliza-la.

Além dos problemas técnicos menores e dos problemas de arquitetura de navegação desassistida, há também a falta de certos elementos de universalização e integração da rede com o resto do ciberespaço que me parecem essenciais para o desenvolvimento de uma rede social bem sucedida. Considerando os fatos de que, em termos globais, grande parte da cena organizada da arte de rua se localiza fora da área de influência  da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e de que mesmo o Brasil não é um dos membros mais interativos dessa comunidade, a simples ausência de versões em outras línguas (minimamente o inglês, mas se possível também o espanhol, considerando as vantagens de uma integração mais regional com nossos vizinhos) denota talvez um certo descuido com o enorme potencial comunicativo da web. Mesmo que a ideia seja restringir-se ao Brasil ou a CPLP, ainda falta também a presença em outras plataformas e espaços virtuais, como a criação de páginas e identidades para divulgação d’O Olho da Rua nessas outras redes (uma página no Facebook e uma id no twitter ou mesmo no identi.ca, se bem utilizadas, poderiam alavancar drasticamente o número de usuários da rede) e a parceria com blogs e sites do meio.

Olho da Rua - Compartilhando informações

Por último (e ainda que esta seja uma consideração mais pessoal acredito que algumas observações sobre o tema podem ajudar os desenvolvedores d’O Olho da Rua a pensar algumas melhorias para os seus serviços) me parece faltar algum diferencial específico, algo que faço o usuário pensar “opa, mas isso eu não poso fazer em outra plataforma”, que não deixe a impressão de que é só mais uma senha para lembrar enquanto tudo o que é oferecido pode ser feito também em outras redes. Quem sabe a integração com um mecanismo open source de cartografia digital colaborativa, como o OpenStreetMap para que o usuário marque a localização geográfica de cada imagem publicada, semelhante ao que modelo do RedBullStretArtView (também criado por uma agência brasileira), mas mais personalizado em menos corporativo. (Bom, é claro que seriam possíveis várias outras inovações, mas isso foi o que pensei agora. De qualquer forma, fica a ideia).

Apesar desses pequenos defeitos, é impossível não levar em consideração também a importância e a força simbólica que tem o gesto fundador de criação dessa rede tão única e que busca projetar-se no espaço comunicativo da arte como um possível auxílio na organização desse enorme e anárquico coletivo formado pelas diversas manifestações da cultura e da arte urbana. Além de um excelente espaço de trocas e apresentação de trabalhos, O Olho da Rua pode se tornar também um importante espaço de organização de ações coletivas múltiplas, descentralizadas, geograficamente ampliadas. Basta que seus usuários se organizem. E como uma rede é formada principalmente por seus integrantes, eu recomendo a todos os leitores que façam como eu: cadastrem-se, publiquem suas fotos e vídeos, chamem seus amigos, divulguem em seus espaços, apresentem críticas construtivas, organizem ações coletivas e ajudem O Olho da Rua a crescer. Este espaço foi criado para o coletivo dos agentes da cultura urbana, e sua continuidade só vai ser viável se esse mesmo coletivo reconhecer o seu valor e assumi-lo para si. Por isso vamos lá, galera! Todo mundo para O Olho da Rua!


Quem tem Q.I. vai – Leminski e o grafite

Quem Tem Q.I. Vai

Salve, galera! Depois de um fim de semestre intenso na facul e de quase perder todo o material bruto e atrasar a entrega de duas edições devido a um colapso geral do meu sistema operacional, finalmente tive tempo de me organizar para trazer à vocês mais algumas reflexões urbanológicas que andei encontrando por aí. Nesta semana apresentarei algumas das idéias do mestre rinzai Paulo Leminski sobre a arte do grafite. Fiquem de olho para mais posts nas próximas semanas!

Leminski grafitando em São PauloInvestigador obstinado das múltiplas funções e manifestações sociais da linguagem escrita, o escritor-tradutor-compositor-publicitário-filósofo-professor-poeta-zen-judoca curitibano Paulo Leminski não apenas estudou como também realizou grafites como parte de sua obra poética ao longo da década de 80. “Numa esquina movimentada, umas quinze mil pessoas por dia podem ler um grafite”, dizia o escritor, que referenciava constantemente em seus discursos o mote mcluhaniano “o meio é a mensagem”. Fascinado pelas possibilidades comunicativas do suporte, as intervenções de Leminski figuraram nos muros de várias cidades em diferentes momentos e espaços, tanto de forma não autorizada, a partir das mãos do próprio artista, quanto em espaços oficiais — por muito tempo o poema “não discuto / com o destino / o que pintar / eu assino” fez parte da paisagem do Largo da Ordem em Curitiba, junto a uma imagem do rosto do artista. O conjunto compunha um mural de mais de quatro metros de altura acima do espaço onde funcionava a extinta Feira do Poeta — ou como parte de eventos, como os vários “Perhappines”, ocorridos entre 1989 e 2004, que, junto à diversas outras ações, expuseram poemas de Leminski em outdoors e painéis urbanos, como o impagável “confira / tudo que / respira / conspira”.

Embora o registro de muitos desses murais e intervenções pareça não estar aberto ou facilmente localizável na rede (é bastante provável que muitos dos envolvidos com o poeta e com os eventos relacionados a ele possuam inúmeras imagens dessas intervenções em seus acervos particulares, talvez mesmo em redes sociais por aí), é possível encontrar na web algumas poucas imagens de intervenções baseadas em Leminski ou que utilizam os seus poemas diretamente, como a que pode ser vista aqui ou aqui. Para saber mais sobre a vida e a obra desse mestre zazen-polaco-tupiniquim visite o site Kamiquase, uma das mais completas fontes de informações sobre o escritor que eu já encontrei na net. Confira abaixo as opiniões do poeta na voz do próprio Leminski.

Este primeiro vídeo já vem circulado na rede faz alguns meses. É um trecho de uma fala de Leminski realizada em um dos anfiteatros do Edifício Dom Pedro I, na reitoria da UFPR, provavelmente o do 10° ou o do 11° andar, que é onde se localiza o curso de Letras. Não consegui descobrir em qual ocasião se deu a fala ou quem eram os outros ocupantes da mesa, mas a citação da presidência de José Sarney (que governou o país entre 1985 e 1990) e a morte de Leminski em junho de 1989 permite situar o discurso em algum momento dos últimos quatro anos de vida do artista curitibano. Avaliando dados menos precisos, como o tamanho avantajado do bigode e dos cabelos, talvez ainda maiores do que podemos ver nos vídeos de sua coluna vídeo-jornalística no Jornal de Vanguarda  [vídeo abaixo] eu arriscaria até mesmo uma data mais precisa, como um de seus dois últimos anos de vida, muito provavelmente algum dia do ano de 1988, cerca de um ano após a publicação de Distraídos Venceremos.

Ainda que a visão histórica de Leminski sobre da arte de rua relacione de forma parcial a origem dessas manifestações com um momento político-histórico bastante recente (o que aponta para uma visão mais restritiva daquilo que Leminski considerava válido como expressão artística na arte de rua), algumas dessas lúcidas falas do poetas sobre as manifestações da poética na intervenção urbana antecipam reflexões que apenas mais tarde viriam a figurar em discursos de estudiosos e acadêmicos que se debruçaram sobre o tema, fato que posiciona Leminski na vanguarda das tentativas de se constituir uma compreensão estética formal das manifestações de arte urbana.

Esse segundo vídeo é a primeira parte (outras três estão disponíveis) de uma compilação da coluna de Leminski no programa Jornal de Vanguarda (posteriormente denominado apenas de Vanguarda), uma reedição de um antigo programa da TV Bandeirantes que veiculou entre 1963 e 1968 e foi encerrado após a publicação do Ato Institucional N° 5. Essa segunda edição do programa foi ao ar entre o final de 1987 e o início de 1989 e era apresentada pela andrógina-androide Dóris “Bowie” Giesse. O trecho em que Leminki fala sobre o grafite é curto mas vale a pena, especialmente pela maravilhosa e jamais esquecida e ainda viva e sendo grafitada  homenagem prestada por ele aos grafiteiros. Não deixe de conferir também o resto do material, que tem momentos inesquecíveis, como a análise do nosso hino da independência ou o momento em que o poeta “veste a camisa”. Para assistir aos outros vídeos do programas e mais vídeos relacionados a obra de Leminski, acesse a página de vídeos do site Kamiquase.


Intervenções na rede – 05.2011

Intervenções na Rede - 05.2011

Links interessantes sobre intervenções urbanas.

. Poro .

Formado pela dupla Brígida Campbell e Marcelo Terça-Nada!, o ”Poro – interferências em arte”, de Belo Horizonte, atua desde 2002, tendo como focos principais o espaço público, as manifestações efêmeras e as mídias de comunicação popular.

QAZ .

A QAZ foi criada no início de 2008 com o objetivo de divulgar no Brasil e no exterior o trabalho de jovens artistas plásticos que têm sua produção relacionada com o graffiti e a street art.

. IAL .

Composto por artistas plásticos, músicos, designers, video-makers, sociólogos, fotógrafos e filósofos o coletivo curitibano Interlux Arte Livre atua desde 2002, mantendo ações contínuas como ocupação e re-significação de espaços urbanos, intervenções plásticas e ações performáticas.

. Red Bull Street Art View .

Desenvolvido pela agência de publicidade brasileira Loducca, o Red Bull Street Art View talvez seja uma das mais interessantes tentativas de se criar um “catálogo universal de arte urbana”. Apesar das evidentes impossibilidades da tarefa (como o fato de que só será possível ao projeto catalogar aquilo que foi fotografado pelo google em um momento específico) a interface criada a partir de um meshup com o Google Street View se apresenta como uma opção interessantíssima para conhecer melhor e mapear as diversas manifestações de intervenção urbana ao redor do mundo.

. Street Art Without Borders .

Criado em  2008 pelo artista e fotógrafo francês Eric Marechal, também conhecido como urbanhearts, o projeto Arte de Rua sem Fronteiras nasceu quando Eric, após mais de vinte anos dedicados à fotografia urbana, resolveu aproveitar suas viagens para aplicar a arte de alguns de seus conhecidos em outros países.


Galeria Urbana

Galeria Urbana




Produzido por David Gomes e Henrique Vale, da Universidade Federal de Juiz de Fora, Galeria Urbana é um documentário que apresenta o a arte e as idéias de algumas das principais vozes do graffiti paulistano sobre essa que talvez seja uma das mais antiga e mais reconhecida manifestação de intervenção urbana.

Com a participação de artistas cujas obras são referências no meio, como o veterano Rui Amaral, os grafiteiros Nunca e Onesto e alguns dos membros do coletivo QAZ, Emol, Cena7 e Gen, o vídeo se destaca por não restringir sua abordagem a uma simples apresentação expositiva da arte, promovendo também reflexões sobre questões maiores relativas ao contexto e aos impactos sociais da arte de rua, como o uso consentido ou não do espaço público como suporte artístico e a apropriação da estética da arte urbana pela publicidade e pelo mercado de arte contemporânea.


Transversalidades Latinas – Sob o Céu da Patagônia [parte II]

Transversalidades Latinas - parte II




Abajo el Golpe de Honduras - Mendoza



No post anterior do projeto Urbanogramas apresentei algumas imagens da minha viagem pelo sul da américa latina como membro da expedição Sob o Céu da Patagônia, que percorreu mais de onze mil quilômetros de estradas argentinas, chilenas, uruguaias e brasileiras. Como a maior parte das imagens do primeiro post sobre esta jornada apresenta os registros dos grandes centros urbanos argentinos, as fotos selecionadas para essa segunda parte são principalmente imagens de intervenções encontradas nas cidades menores, como Esquel, Perito Moreno e Pucón.


No Educarás - Córdoba
Universidad Libre - Córdoba


En Santa Fe Desaparecen Mujeres - Santa FéComo comentei no primeiro post, um dos elementos que mais se destaca nas intervenções que encontrei nesses lugares é a manifestação constante de discursos voltados para uma crítica política ou de aspectos sociais da cultura local. Embora também seja possível encontrar lambes e stencils nestes pequenos núcleos urbanos, a maior parte das intervenções são compostas por frases diretas inscritas nos muros com pincel, rolo ou spray, o que coloca em evidência a valorização do caráter discursivo dessas manifestações em detrimento do aspecto estético.

Diferente das falas encontradas nos grandes aglomerados, que são mais facilmente interpretadas devido ao seu caráter universal, o que se reflete nesses outros espaços são exatamente as inquietações locais e regionais, tornando necessário conhecer um pouco mais sobre a própria sociedade onde essas falas se inserem para se compreender efetivamente a razão social desses discursos. Um exemplo desse processo pode ser encontrado na imagem abaixo.


Resistência Mapuche - Ruta 40



Essa foto foi tirada em frente a uma lanchonete de beira de estrada situada na Ruta 40, entre as cidades de San Carlos de Bariloche e Esquel. O destaque em escala de cinzas é uma tentativa de deixar mais claro os dizeres: “Resistência Mapuche: Fuera Ursupadores del Walmapu”. Para quem não sabe, os Mapuches são uma das maiores etnias indígenas da América do Sul, tendo desenvolvido nos territórios da Patagônia uma sociedade comparável à que os Guaranis e Aimarás desenvolveram nas regiões silvícolas do continente. Infelizmente, assim como outros povos no resto da América Latina, sua população foi quase dizimada, restando apenas alguns grupos de resistência que lutam pela conservação do pouco que ainda resta da cultura mapuche. “Walmapu”, que pode ser traduzido como “todo o território que nos cerca”, é o nome dado pelos Mapuches àquilo que é reconhecido por eles como a Nação Mapuche, o espaço geográfico de manifestação histórica  e cultural, o território ancestral a ser defendido de invasores.


No a la Mina - Esquel



De forma semelhante, é possível encontrar em grande parte das cidades da patagônia próximas à cordilheira intervenções que fazem referência às minas e empresas de mineração que atuam na região. Como as condições climática e geográficas da patagônia tornam a região menos propícia à produção agricultura ou pecuária em larga escala, incentivos e subsídios fiscais à grandes mineradoras tem sido recorrentes na história de como os governos da Argentina e do Chile lidam com as perspectivas econômicas da região. E como esses processos são reconhecidamente agressivos e danosos aos biomas e populações locais, podemos dizer que é mais do que natural o surgimento e a aceitação social de protestos e manifestações contrárias à tudo isso. Infelizmente, medidas como essas ainda são mais comuns do que tentativas de viabilizar uma economia baseada no turismo ambiental e na sustentabilidade local. (Na foto abaixo, além do protesto, fica evidente a origem da intervenção na assinatura FUT-PO, sigla da Frente Unidad Trabajadora do Partido Obrero).


No a las Mineras - Perito Moreno



A Organizarse Luchar - PucónAlém destes discursos voltado para os aspectos locais, outro símbolo recorrente que chama a atenção nas intervenções desta região é a imagem do médico, escritor, político, guerrilheiro, revolucionário e socialista Ernesto “Che” Guevara, carinhosamente referenciado como “El Che”. Simbólicamente vinculada à ações e atitudes de protesto e luta contra a opressão social das políticas capitalistas, a presença constante da figura do revolucionário revela como o próprio Che Guevara passou a ser reconhecida como uma inevitável referência histórica das muitas manifestações de uma luta ancestral para a maior parte dos povos latino-americanos: a busca pelo reconhecimento de uma identidade latina, unida em sua diversidade, em oposição à uma identidade estrangeira e homogeneizada, estereotipificadora, submetida à colonização cultural de países imperialistas.


El Che Vive - Córdoba

Che 80 anos - Santa Fé



Algumas dessas intervenções revelam também um certo caráter idealizador neste movimento de identificação em direção à figura de Che Guevara, como inscrições encontradas na cidade de Córdoba, segunda maior metrópole argentina, fazendo referência ao período em que a família de Guevara teria vivido na cidade (1941-1946) para que o próprio Ernesto, então com 13 anos, deixasse de sofrer com sua asma, mal que o acompanhou a vida inteira.

El Che - Córdoba



Curiosamente, mais do que as elaboradas e mais decifráveis intervenções que encontrei em Córdoba, SantaFé e outras cidades maiores, o que me me marcou com maior intensidade nessa jornada pelo continente latino-americano foi o desenvolvimento da percepção de que a relação de certas obra de intervenção com seu contexto histórico-social é tão direta e intrínseca [eu arriscaria até dizer que beiram a indissociabilidade] que, mesmo para quem busca desenvolver um olhar mais atento, a total apreensão e apreciação dessas obras de intervenção (e por que não dizer de toda obra de intervenção?) torna-se praticamente impossível para o estrangeiro, o estranho, o não-local, o outro. Ainda que se busque mais informações e se pretenda alcançar uma compreensão mais ampla, sempre haverá algo de insuspeito, de invisível, que passará desapercebido para aquele que não vive integralmente as condições sociais do espaço onde aquela intervenção se manifesta.




Transversalidades Latinas – Sob o Céu da Patagônia – parte I

Transversalidades Latinas



Transversalidades Latinas - Esquel


Entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011 percorri mais de 11.500 quilômetros pelas estradas sul-americanas com outros três amigos. A expedição Sob o Céu da Patagônia cruzou trechos do Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, sendo que pouco mais de três quartos desta viagem (cerca de 9.000 quilômetros) foram rodados nas bem conservadas estradas Argentinas. Atravessamos treze das vinte-e-três províncias do país, e estivemos nas capitais de oito delas. No Chile, nossa passagem mais apressada nos levou a povoações menores e mais periféricas (embora não menos férteis).


Quiero tu Agua - Posadas


Ainda que a expedição tivesse como principais objetivos algumas das mais impressionantes paisagens naturais da américa do sul, nos dias que passamos percorrendo aglomerados urbanos dos mais variados tamanhos, extensões e densidades demográficas, tentei registrar as intervenções que testemunhei em minha passagem, embora a maior parte delas não tenha sido capturada por questões circunstanciais que me impediram de utilizar a câmera.


Jaulas Vacias - Córdoba
Durante esta jornada pude confirmar que a presença de intervenções nas superfícies públicas e fronteiriças do meio urbano é um fenômeno comum à praticamente todas as manifestações da urbanidade na paisagem social humana, desde os pequenos e quase despovoados vilarejos até as superpopuladas megalópoles, algo que me parecia evidente, mas que eu nunca tivera a chance de comprar pessoalmente.


Vivir es Pasar Verguenza - Santa Fé
Como a extensão geográfica da expedição atravessou uma enorme variedade de diferentes ambientes sociais, pude testemunhar uma grande diversidade de manifestações diferenciadas de obras de intervenção urbana, desde a simples “pichação”, geralmente de cunho político, até os mais detalhados painéis em grafite. Transbordando de elaboradas superfícies representativas, as grandes metrópoles, como Córdoba, Mendoza e Santa Fé, apresentavam os panoramas mais ricos e variados.


Quien se Acuerda de Nosotrxs - Córdoba


Tributo a Mi - Santa Fé
Embora sejam também os espaços onde as manifestações meramente invasivas, territorialistas e individuais, como tags pessoais e de gangues, aparecem com maior frequência, a enorme variedade de intervenções proporciona uma visibilidade mais ampla para essas manifestações, e provavelmente uma aceitação maior.






Grafite - Córdoba


Que Harias si Tuvieras Tiempo - Córdoba


Power to the People - Santa Fé


Curiosamente, foi nas povoações menores, como Esquel, Perito Moreno, Pucón ou El Calafate, que tive a oportunidade de testemunhar o maior número de intervenções cujo discurso apresentasse uma preocupação social ou política, em parte talvez devido a rejeição natural dessas comunidades às intervenções de cunho mais pessoal.


Y mi voz no vale? - Córdoba


Dia a dia nos mienten - Córdoba


Confira o final de meu relato e mais algumas imagens no próximo post do projeto urbanogramas.


Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos – ações poéticas do Poro

intervalo, respiro, pequenos deslocamentos

Capa de Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos – ações poéticas do Poro

Formado pela dupla-coletivo de artistas Brígida Campbell e Marcelo Terça-Nada, o Poro atua no cenário brasileiro da arte de intervenção urbana desde 2002, executando ações que se articulam em vários planos com diferentes instâncias da urbanidade. Operando na fronteira entre o observado e o desapercebido, o reconhecimento e o estranhamento, o impactante e o sutil, seus trabalhos atuam no campo da evidenciação das relações entre os suportes da arte, as funções sociais do discurso artístico no meio urbano e o espaço-momento-acontecimento onde a obra se efetiva. Uma mistura de  inutensílios de Leminski com o happening de Kaprow, ou do ready made de Duchamp com as propagandas impropagáveis leminskianas, as ações-provocações do Poro se situam na margem do cotidiano urbano e no intervalo-pausa em que este pequeno deslocamento de perspectiva se faz necessário para que a apreensão da obra e de seus efeitos sobre o observador se realize.

Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos – ações poéticas do Poro“, livro lançado em Curitiba na última sexta-feira, dia 08, dentro do evento MOB – Arte, Bicicleta e Mobilidade no Solar do Barão, apresenta o conjunto da produção artística, intervenções urbanas e proposições políticas realizados pelo Poro nos últimos nove anos. Premiado pelo Programa Brasil Arte Contemporânea da Fundação Bienal de São Paulo e Ministério da Cultura, o livro traz também, além do extenso registro fotográfico das ações do Poro, os contundentes textos inéditos de Daniela Labra (pesquisadora e curadora – Rio de Janeiro), André Mesquita (pesquisador e ativista – São Paulo), Newton Goto (artista, pesquisador e curador – Curitiba), André Brasil (pesquisador da área de comunicação – Belo Horizonte), Wellington CançadoRenata Marquez (arquitetos, curadores e pesquisadores – Belo Horizonte), Anderson Almeida (escritor – Belo Horizonte), Luiz Carlos GarrochoDaniel Toledo (pesquisadores e criadores cênicos – Belo Horizonte), Ricardo Aleixo (poeta, curador e ativista cultural – Belo Horizonte).

Variando do autobiográfico, do episódico e do poético ao ensaístico teórico-reflexivo, os textos delineiam olhares e perspectivas diferenciadas sobre a obra do Poro, construindo uma visão em mosaico, fragmentada mas não dispersiva, dos processos artísticos e dos impactos sociais e teóricos das ações do coletivo-dupla. Alguns dos ensaios, como “Insignificâncias: a política nas intervenções do Poro”, de André Brasil, “Poro: na linha dos olhos”, de Daniel Toledo e Luiz Carlos Garrocho, ou “Arquiteturas adesivas”, de Renata Marquez e Wellinton Cançado, ultrapassam pela amplitude de suas visões a simples observação sobre a obra abordada, projetando-se no escasso campo das necessárias reflexões teóricas mais profundas sobre as artes de intervenção urbana.

O livro pode ser adquirido diretamente no site do Poro ou nas livrarias listadas abaixo:

Salvador: Lojinha do MAM (Museu de Arte Moderna da Bahia)
Rio de Janeiro: Livraria da Travessa (R. Visc. de Pirajá, 572)
São Paulo:
Livraria do Espaço Unibanco de Cinema (R. Augusta, 1475)
Livraria do Cinema Reserva Cultural (Av. Paulista, 900)
Livraria Ato de Ler (R. Br. de Itapetininga, 255, loja 24)
Livraria Loyola (R. Sen. Feijó, 120)
Livraria da Unesp (Pça. da Sé, 108)
Arsenal do Livro (Av. 9 de Julho, 925)

Mais informações na página do livro e no site do Poro.

 


III Ato Poético

III Ato Poético

 

III Ato Poético - Videoinstalação

 

A partir desta sexta, 25 de março, a Fundação Casa do Estudante Universitário do Paraná, também conhecida carinhosamente como CEU, promove o III Ato Poético, evento que se propõe a articular espaços para discussões sobre processos que estão alterando de forma significativa a relação da população com a cidade e a forma como ela produz, acessa e consome cultura.

Temas como arte urbana, projetos de intervenção urbana, audiovisual, violência e intolerância, teatro, políticas públicas para a cultura, movimentos estudantis, música autoral, mobilidade, acessibilidade e transporte público serão pauta de debates, práticas e reflexões. Estudantes, professores, ativistas, artistas, intelectuais, associações, sindicatos, movimentos populares, casas de estudantes e movimentos de representação estudantil estarão se reunindo nestes cinco dias para participar de palestras, mesas-redondas, oficinas, performances, apresentações culturais e exposições artísticas.

Juliano Grus

O artista-plástico e músico Orlando Muzca e o produtor e artista-plástico Juliano Grus, que participaram de meu documentário Urbanographia Digitalizada de Baixa Resolução – versão beta, fazem parte da produção do evento e estarão também ministrando oficinas, o primeiro de  pintura livre nos tapumes frontais do prédio em reforma e o segundo de Flip Book.

E no dia 28, segunda-feira, às 21h, será realizada na Biblioteca da CEU, no térreo do edifício, a Mostra CAZé/CINETV, com filmes que abordam a temática urbana realizados pelos alunos do curso de Cinema e Vídeo da CINETV PR/FAP.

Fruto da mobilização voluntária de moradores e ex-moradores, artistas, colaboradores e da sociedade civil organizada, o Ato Poético é uma produção independente que não conta com recursos oriundos de entidades públicas, empresas e instituições político-partidárias. Ele acontece entre os dias 25 e 29 de março no prédio da Fundação Casa do Estudante Universitário do Paraná (CEU), que fica na Rua Luiz Leão 01, entre o Colégio Estadual do paraná e o Passeio Público de Curitiba. Para conhecer a programação e saber mais sobre o evento, visite o site do III Ato Poético.

 


Janela de Prospecção

Janela de Prospecção

“Essas paredes mais parecem um solo revolvido”
- Nelson Brissac Peixoto

Na preservação e no restauro de edifícios históricos costuma-se selecionar um trecho das paredes, normalmente em formato retangular, para avaliar, através da cuidadosa extração da camada exposta, as características e condições das camadas de pintura mais antigas e permitir a visualização de suas configurações originais ou anteriores à pintura aplicada mais recentemente . A este espaço de observação das condições regressas da obra arquitetônica dá-se o nome de Janela de Prospecção. Através dela, arquitetos e restauradores espreitam o passado, obtendo vislumbres das anterioridades históricas dessas superfícies.

 

Janela de Prospecção

 

Este é o muro de um estacionamento situado em frente ao teatro Guairinha, na esquina das ruas XV de Novembro com Tibagi, centro de Curitiba. Por muito tempo foi um espaço utilizado por grafiteiros para manifestar sua arte, desde a mais simples pichação e a aplicação de tags, lambes e stencils até a grafitagem de elaborados painéis figurativos. Em 2010, durante o período de eleições, duas faixas de propaganda política foram instaladas no muro, que foi pintado de amarelo. Curiosamente, a pintura do muro foi realizada somente depois da instalação das faixas (que após as eleições foram removidas), criando inadvertidamente essa reveladora janela para a anterioridade imagética oculta no muro.

Ainda que pareça trivial, esse fato revela sutilmente uma das principais características da paisagem urbana: a permanente efemeridade de suas superfícies.  A conceituação típica das imagens urbana remetem continuamente a idéia de concretude e imutabilidade, com seus enormes blocos edificados de concreto e suas paisagens achatadas desprovidas de horizonte. A imagem natural de referência é a montanha, a rocha, imóvel e irremovível. Imaginar a cidade é reviver este arquétipo de cidade em nossas imagens mentais. Não há espaço para o transitório. Mesmo que ele habite continuamente o nosso campo de visão, o olhar o ignora, reorganizando a imagem mental do muro a cada vez que este é visto novamente, assimilando a mudança contínua como permanência, refazendo todas as imagens anteriores deste muro até que elas se assemelhem a imagem atual. Este muro sempre foi assim.

Mas o fato é que, como todas as criações humanas, as superfícies que compõe a paisagem urbana estão sujeitas a uma permanente revisão de suas características representativas. A fachada de um edifício cujas cores se tornaram “obsoletas” é repintada para evidenciar a “modernidade” do pensamento de seus ocupantes. Luminosos e letreiros com projetos considerados arrojados à época de suas criação são substituídos por placas de um desenho mais “contemporâneo”, para evitar que a instituição que eles representam seja interpretada como antiquada. Mesmo as pavimentações e calçamentos, o paisagismo de árvores e gramados, postes, placas de trânsito, lixeiras e pontos de ônibus são redesenhados pelos urbanistas do poder público para se adaptar ao olhar que rejeita o antigo, o olhar que anseia pelo novo de tal forma que precisa projetar este novo sobre a imagem do antigo, suplantá-la, apagá-la, atualizá-la e eternizá-la em sua nova configuração.

 

Janela de Prospeccao

 

Assim como este insuspeito muro, cada superfície do urbano oculta em si a história de sua própria anterioridade, coberta e apagada por uma renovação obsessiva disfarçada de continuidade. Como um sítio arqueológico onde cada camada de solo desvenda toda uma era, o muro se revela uma construção palimpséstica na qual a sobreposição das camadas denuncia a impossibilidade da permanência. Ainda que invisíveis ao olhar dessensibilizado do habitante das cidades, essas camadas guardam consigo os vestígios de uma paisagem urbana cuja expressão evidencia as múltiplas visões sociais possíveis sobre a função deste mesmo muro no imaginário representativo do coletivo. A cada nova camada, uma nova função de representação se concretiza.

Há também um jogo político de poder sobre a imagem no espaço público e as representações sociais operando nessas superfícies. A representação de propriedade privada é suplantada pela representação proibida da expressão de identidade individual e coletiva das intervenções, que por sua vez é suplantada pela representação socialmente mais aceita da propaganda política travestida novamente em representação da propriedade privada através da pintura mal realizada do muro, muito provavelmente paga pelo político cujas faixas ausentes nos permitem observar todo este panorama dissociativo em conjunto com o vislumbre de uma camada ainda mais recente e em processo constitutivo de intervenções que tentam reorganizar novamente toda a superfície.

Quando a fachada do prédio central da Universidade Federal do Paraná foi repintada, cerca de cinco anos atrás, a raspagem das camadas mais recentes revelou um universo histórico-social  não reconhecido pelos órgãos oficiais. Inscrições com frases de protesto contra o regime militar, reivindicações pela libertação de presos políticos e slogans comunistas e anarquistas surgiram por todas as paredes externas do edifício, a maior parte delas realizada provavelmente pelos integrantes dos movimentos estudantis da época, alunos da própria Universidade Federal. Infelizmente, o registro dessas expressões de uma visão histórica específica manifestada na paisagem urbana foi considerado pelas autoridades menos importante do que a readequação da imagem externa do prédio a um padrão institucional que representasse o seu pertencimento ao aparelho estatal, impessoal, intocável e absoluto.

Instalada como fronteira entre identidades individuais e coletivas e operando como suporte de representações sociais e conflitos de poder, a superfície opaca do muro ultrapassa o simples status material de sua condição in natura para projetar-se como espelho em uma fenomenologia reflexiva que se revela transparente às próprias funções sociais e imateriais do muro e de suas possíveis manifestações na organização do urbano. Pelos reflexos imanentes da imaterialidade de suas superfícies, a cidade desvenda as arquiteturas ocultas dos seus mecanismos de estruturação do espaço de representações no coletivo. Destituída de suas funções primárias e reantropomorfizada continuamente ao longo de seus processos de relação social com o espaço, a superfície-espelho-vidro do muro torna-se janela para o universos das representações humanas.


A voz feminina

A Voz Feminina - Intervenções do Coletivio de Ação Feminista

Na semana do dia Internacional da Mulher, o projeto Urbanogramas apresenta um pouco da agressiva e contundente arte  das meninas do Coletivo de Ação Feminista, radicado em Curitiba.

 

Intervenções Feministas próximas ao Teatro Guaíra

 

Compreendidas pela maior parte da população como um ato de vandalismo resultante da atuação de grupos de delinquentes,  as ações de intervenção na paisagem urbana costumam também ser interpretadas como um comportamento tipicamente masculino.  Mesmo o grafite e suas variações muralísticas, mais aceitas pela sociedade, são tradicionalmente vinculadas à imagem do homem, ou mais especificamente do menino, do garoto, do moleque. Até entre aqueles que circulam no meio é possível identificar uma visão claramente masculinizada de quem são aqueles que produzem a arte urbana. Na verdade, embora muitos respeitem as ações das meninas, poucos são aqueles entre os próprios artistas que encaram com naturalidade a presença feminina no meio. Bom, embora elas não estejam tão presentes quanto eles, a verdade é que não são só os meninos que gostam de desenhar nas paredes.

Lambes e stencils do Coletivo de Ação Feminista

Nos últimos dois anos o Coletivo de Ação Feminista têm realizado diversas intervenções no centro da cidade de Curitiba, com lambes e stencils surgindo por toda parte, em especial no entorno da CEUC, a Casa da Estudante Universitária de Curitiba, localizada próxima ao DCE e a Reitoria da UFPR. Um dos espaços mais expressivos e característicos das ações delas está instalado no início da rua Amintas de Barros, na parede do imóvel onde se localizava o antigo Mercadorama, a menos de cem metros do teatro Guaíra e do Passeio Público, conhecidos pontos turísticos da capital paranaense.

Atacado por intervenções de todo o tipo desde o fechamento do supermercado em 2008, o espaço se tornou um dos principais alvos das meninas do coletivo. Ali as marcas individuais evidenciam as diferentes angustias, desejos e indignações diante do forma como a imagem da mulher é apropriada pela sociedade patriarcal. Ali, as manifestações de identidade se conjugam na criação de discursos afirmativos e reivindicatórios a respeito de uma nova condição feminina em nossa sociedade.

 

Mais visibilidade

 

POÉTICAS DO FEMININO

Embora os questionamentos e reflexões a respeito do papel e da identidade social da mulher se manifestem há muito mais de cem anos na sociedade ocidental a maior parte das manifestações contemporâneas de feminismo podem ser vinculadas direta ou indiretamente aos diversos movimentos de defesa pelos direitos sociais que eclodiram nos anos 60. Para as feministas Maggie Humm e Rebecca Walker, este momento histórico marca o início da chamada segunda onda do feminismo, caracterizada pelas lutas e protestos de um movimento de liberação feminina cuja esfera de interesse se deslocava do mero direito jurídico para passar a questionar processos sociais discriminatórios e o tratamento público da imagem feminina. A partir da década de 90, em uma reação às posturas radicais e reducionistas de alguns setores desse movimento, a chamada terceira onda passará também a considerar questões relacionadas à subjetividade social da mulher em processos de diferenciação racial, étnica, religiosa ou econômica, inaugurando o chamado feminismo da diferença.

A Violência do Patriarcado

Ainda que uma certa leitura das idéias da terceira onda esteja presente no tratamento dado a algumas das intervenções encontradas no centro de Curitiba, a influência dos pensamentos e posturas da segunda onda é a que se manifesta com maior evidência no trabalho do Coletivo de Ação Feminista. Elementos como a postura agressiva, a foco na macropolítica, a influência de idéias anarquistas e do movimento gay e a presença de slogans como “Seu silêncio não vai te proteger”, da escritora e ativista Audre Lorde, ou “O Pessoal é Político”, expressão de Carol Hanisch que se tornou um símbolo do movimento, são alguns dos elementos típicos dessa fase que figuram entre as escolhas feitas pelas meninas para compor suas mensagens.

 

O Pessoal é Político

 

Em parte, isso se dá pela força inerente, a assimilação direta e a objetividade que essas idéias e lemas possuem. É provável que isso ocorra também em função ampla difusão e do grande impacto histórico alcançado pelos discursos da segunda onda, largamente propagados por um conjunto de mídias que passava a ampliar cada vez mais seus processos de massificação, enquanto a recente terceira onda, que se consolidou em um momento em que o foco da comunicação social se deslocava das grandes mídias de massa para as dispersas e pessoais mídias digitais, ainda não teve a oportunidade ou tempo histórico necessário para ser difundida e assimilada de forma mais ampla.

No hay Libertad Politica sin Libertad SexualOutro elemento que podemos encontrar nas intervenções das meninas são os slogans e idéias propagadas pelos movimentos que defendem os direitos dos homossexuais, como “No Hay Libertad Politica sin Libertad Sexual” ou as imagens em lambes e stencils que representam duas mulheres se beijando, o que demonstra uma forte ligação entre esses dois movimentos dentro do coletivo e aponta uma possível conexão atuando também no âmbito da coletividade social como um todo. É inevitável supor também que essa relação propicie uma afinidade ainda  maior do coletivo com os discursos da segunda onda, momento em que se consolidou uma forma histórica de atuação dos dois movimentos, em especial no estimulo a ações de protesto e desobediência civil como forma de manifestação.

 

Siga Seu Próprio Padrão de Beleza

 

Há ainda a presença marcante das críticas ao ideal de beleza feminina propagado pela sociedade contemporânea, seja em frases diretas estampadas no muro, como “Siga o seu próprio padrão de beleza”, seja na invasiva pichação ”Não sou imagem!”, encontrada embaixo de um cartaz de produtos para cabelos de um salão de beleza que fica na mesma quadra do painel das meninas. Opondo-se a um estereótipo do feminino construído e propagado pelas grandes mídias, essas manifestação evocam novamente elementos marcantes no discurso feminista desde o início da segunda onda, embora essas sejam críticas presentes também, em maior ou menor intensidade, em todas as outras manifestações do feminismo ao longo da história.

 

Intervenções do Coletivo de Ação Feminista no centro de Curitiba

 

Problematizando a imagem e a atuação das mulheres no mundo contemporâneo e convocando suas semelhantes a assumir um comportamento mais ativista, as ações das meninas do Coletivo de Ação Feminista demonstram que, apesar das conquistas inquestionáveis do movimento, vivemos hoje em um momento histórico no qual a voz feminina, abafada, ignorada ou distorcida pelos discursos dominantes, ainda luta bravamente para alcançar os ouvidos moucos de uma sociedade patriarcal, ainda anseia por um espaço de expressão que realize de forma mais completa e determinante a necessidade social de reflexão e debate sobre seus discursos, ainda precisa protestar agressivamente contra o tratamento condescendente e paternalistas que nossa sociedade fornece como resposta mais comum aos questionamentos do pensamento feminista contemporâneo.

 


Urbanographia, o curta

Urbanographia, o curta - parte I

O projeto Urbanogramas estréia contando a estória da obra que deu nome ao blog, o documentário Urbanographia Digitalizada de Baixa Resolução – versão beta. Filmado por uma equipe de cineastas amadores em 2005, o curta tenta retratar algumas visões sobre a cena da arte de rua curitibana, concentrando-se especialmente em artistas que utilizam o lambe como principal forma de expressão.

Selecionado em festivais e mostras por todo o país e exibido por canais da TV aberta e paga, o filme acaba de completar cinco anos da sua primeira exibição. Conheça abaixo um pouco mais de sua história.

 

 

A IDÉIA

Embora tenha sido gravado em setembro de 2005, o curta Urbanographia foi concebido pela primeira vez em julho de 2003, na ocasião em que realizei minha última intervenção em larga escala na cidade de Antonina durante o 13° Festival de inverno da UFPR. Tendo me envolvido com as mais diversas manifestações artísticas ao longo de minha trajetória, transitando entre a pintura e a ilustração, a poesia, a intervenção urbana e a fotografia, aquela foi a última ocasião na qual minhas intervenções poéticas seriam confrontadas com o público (ainda que eu não fizesse a menor idéia disso na época). A partir do ano seguinte, toda a minha energia seria dedicada ao audiovisual e suas diversas manifestações.

Intervenção registrada pelo filme UrbanographiaMas ainda que não executasse mais intervenções no espaço urbano, a paisagem da cidade e os infinitamente variados urbanogramas que a habitam nunca deixaram de fazer parte de meu horizonte de reflexões. Era impossível para mim (como ainda é até hoje) transitar pela cidade sem dedicar boa parte de meu olhar a observação dos grafites, stencils, lambes, stickers e todo o tipo de intervenções oferecidas pelos muros, postes, placas de trânsito e outros inúmeros espaços presentes no meio urbano. A localização, o material utilizado, a escolha do objeto de intervenção, a mensagem. Frases de efeito, palavras de ordem, símbolos anarquistas, anti-fascistas, nazistas, feministas, logomarcas famosas e celebridades desconstruídas, Bush, FHC e Che Guevara, silogismos, paralogismos e neologismos. A anti-topologia antropológica do urbano, onde cada objeto difere infinitamente do outro, por maiores que sejam suas relações de semelhança.

Assim, quando em 2005 surgiu a oportunidade acadêmica de realizar um documentário, fui tomado pela idéia do Urbanographia. Com uma equipe reduzida (inicialmente com cinco membros, mas que se reduziria a três ainda antes das filmagens), composta por mim e por meus colegas Alexandre Maichrowicz e Millie Panichi, o projeto fazia parte da formação em cinema pela Academia Internacional de Cinema, cuja sede a época se localizava em Curitiba. Era a oportunidade de retomar minhas observações utilizando agora uma linguagem que sempre me atraira, a oportunidade de lançar um olhar inicial sobre a arte e o urbano que poderia servir como plataforma para futuras observações (visão que inspirou o subtítulo versão beta).

A PRÉ-PRODUÇÃO

Muzca - Artista de Rua e DJComo a realização de minhas intervenções sempre foi um processo solitário, comecei buscando por artistas que estivessem dispostos a serem entrevistados, processo no qual o amigo Juliano Grus foi imprescindível. Através dele estabeleci contato com os integrantes do coletivo Interlux Arte Livre, que formaram a base principal dos depoimentos do núcleo dos artistas. Jovens, conscientes e comunicativos, Muzca, Olho, Dimax e Parada foram também os artistas que ajudaram a organizar e levar a termo a maior parte das ações de intervenção, realizadas exclusivamente para o filme e gravadas durante o feriado da independência daquele ano. Além disso, Muzca se propôs a criar uma composição musical para o filme, idéia que foi imediatamente aceita e assimilada no projeto. Jack Rocha, amigo de longa data, me apresentou a A. B. Ducci, o Anatomista, outra presença importante no filme, pois eu sempre apreciara muito suas intervenções.

Mas eu também queria descortinar visões mais amplas, conhecer alguns dos discursos indiretos sobre essa arte, as vozes acadêmicas. Foi também Juliano Grus quem me indicou a Manoel Neto, que me passou o contato de alguns nomes essenciais para o curta: a historiadora e professora de História da Arte Elisabeth S. Prosser (também indicada pelo pessoal da Interlux) e a antropóloga (na época ainda graduanda) Dayana Zdebsky. Posteriormente, Dayana me forneceu o contato de Paulo Reis, professor de História da Arte Contemporânea e último elemento a compor o núcleo dos acadêmicos.

Registro da obra do AnatomistaTendo como objetivo principal a realização de um exercício acadêmico, o planejamento das gravações de Urbanographia apresentaram duas limitações básicas: o tempo e o equipamento. Como tinhamos um prazo de entrega determinado e só podíamos dispor do equipamento da AIC por dois finais de semana, o cronograma foi elaborado de forma que pudéssemos captar todas as entrevistas e as ações de intervenção nos poucos dias em que estivéssemos como equipamento em mãos. Após algumas conversas com as personagens e com meus colegas de equipe, Alexandre e Millie, elaborei as pautas  e as entrevistas foram marcadas.

Com isso encaminhado, estava no momento de começar a gravar.

REGISTRANDO  URBANOGRAMAS

Na maior parte do tempo, as gravações de Urbanographia foram como uma extensão de minhas observações sobre o meio urbano, mas com um olhar mais direcionado, filtrado pelo olho da câmera, cheio de chicotes e zooms. Embora estivéssemos limitados pelo uso agendado dos equipamentos da AIC, minha visão do filme como um mosaico em mutação me apontava para outros caminhos.

Mickey & Ronald - Banksy

Logo de início, optei pelo uso de uma câmera de menor qualidade como segunda câmera, utilizando minha JVC caseira para realizar registros de urbanogramas e da cidade nos dias em que não teria o equipamento principal em mãos. Com isso pude não só reduzir o uso deste equipamento como também imprimir uma componente essencial para o curta: a câmera subjetiva, incerta, tremida, imprecisa, desafiando o espectador a observar este mundo com novos olhos. Nas semanas anteriores às entrevistas, captei diversas imagens da paisagem urbana e de suas intervenções, percorrendo a cidade em diferentes dias, horários e climas. Posteriormente, essa mesma câmera foi utilizada durante a captação das ações nas ruas.

Dayana Zdebsky, Antropóloga

Para operar o equipamento principal em contava com Alexandre Maichrowicz, que realizou também a fotografia do curta, e Millie Panichi, que além de fazer a captação de áudio durante as entrevistas foi uma excelente assistente de edição. O uso desse equipamento foi dividido em três etapas: 1 – a captação de imagens urbanas e intervenções presentes na paisagem, que seria realizado ao longo do dia, antes e depois das entrevistas; 2 – as entrevistas em si, com duas ou três marcadas para cada dia; e 3 – o registro da ação de intervenção.

Propositadamente, escolhi captar as entrevistas dos artistas a noite e as dos acadêmicos durante o dia. Buscando ressaltar ainda mais as diferenças de discursos e perspectivas, orientei Alexandre para que a câmera que captase os artistas se comportasse de forma  radicalmente diferente da câmera dos acadêmicos. Como nos registros da cidade, fizemos todas as gravações dos artistas com a câmera na mão, questionadora, atenta aos detalhes, framentária. Respeitamos os artistas que preferiram o anonimato, invadimos o espaço dos que não se incomodavam em se expor. Já a câmera que registrou os acadêmicos era mais contida. Gravamos as entrevistas com a câmera no tripé, evitando uma maiores alterações no quadro e mantendo o foco no rosto dos entrevistados.

Muzca em ação

Nos últimos dois dias, gravamos a execução das intervenções. Encontramos os artistas da Interlux no início da madrugada. Com as duas câmeras nas mãos, acompanhamos o grupo e seus companheiros enquanto eles nos apresentavam a diferentes ninhos e espaços de intervenção recorrentes, colando seus lambes e aplicando máscaras de stencils pelos muros da cidade. Em poucas horas percorremos grande parte do centro registrando a arte de rua em ação. No dia seguinte, nos encontramos com o Anatomista A. B. Ducci, que atua sozinho, para gravarmos algumas de suas intervenções, desta vez diurnas. Estas foram as últimas imagens gravadas.

Era hora de editar o curta.

A PÓS

Como a grande quantidade de material que tínhamos exigiria muitas horas para ser montado, decidi não utilizar o equipamento da AIC, já que ele só podia ser usado em horários específicos e limitados. Assim, as fitas foram todas capturadas em minha casa, onde a primeira edição do filme foi realizada integralmente. Na primeira primeira fase desta edição Millie me ajudou a transcrever todas as falas e separar as imagens pertinentes. Depois de alguns dias assistindo repetidamente cada fita, a decupagem do material foi terminada. Pela primeira vez pude visualizar o filme que tinha em mãos.

Juan Parada

Observando aquelas imagens e falas, me dei conta de como os discursos ali apresentados se diferenciavam. Muitas das falas acadêmicas pareciam distantes da verdade apresentada pelos artistas, e vice-versa. Partindo disso, resolvi separar os dois grupos em blocos distintos, com planos, ritmos e sonoridades que tornassem essa separação ainda mais evidente, como se cada um estivesse operando em uma sintonia diferente do outro, ainda que convergentes.

Nesta fase, em que o ritmo do corte estava começando a ficar claro, passei a buscar também uma trilha musical que estivesse de acordo com o que desenvolvíamos. Desde o início da pós-produção já tínhamos em mãos a música composta por Muzca, um dos artistas que entrevistamos, e parte da edição já estava sendo feito tendo o seu ritmo como base. Mas o filme ainda precisava de outras sonoridades, algo que remetesse a0 coletivo e ao ancestral, estranho ao universo dos artistas mas comum a todos. Como o nosso prazo de entrega do filme estava quase no fim, selecionei naquele momento a versão Live In Timbuktu de Win My Train Fare Home, música de Robert Plant que, para evitar problemas legais, seria substituída na segunda e última versão do filme, finalizada no início de 2006.

A. B. Ducci, o Anatomista em ação

Após a inserção das músicas, alguns ajustes no corte e a colocação dos créditos finais, o filme estava pronto para sua primeira exibição, realizada pela Academia Internacional de Cinema em dezembro de 2005, no Er Só o Que Fltv. Depois desse exibição, o filme ainda passaria por algumas adaptações na sequencia de abertura e, principalmente, na escolha da música que substituiria a canção de Robert Plant na última sequencia. Após uma busca no cenário local, encontrei o que queria na sonoridade do grupo Bayaka. Dando continuidade à tradição iniciada pelo grupo Terra Sonora, o Bayaka é um grupo de música étnica formado por mais de vinte músicos. Na época, meu irmão era uma das vozes masculinas do grupo. Com a autorização do maestro Plinio Silva, selecionamos Beyarmak, uma música de aborígenes australianos para completar o som do curta.

Agora sim o filme estava pronto para ir pra rua.

LANÇAMENTO E EXIBIÇÕES

Cartaz do lançamento do curta na Cinemateca de Curitiba

Após sua exibição inicial para os alunos da AIC, Urbanographia foi exibido também em eventos de arte de rua, cineclubes e outros espaços alternativos. Foi apenas depois de algum tempo que comecei a inscrever o filme em mostras e festivais. A partir de então, o curta seria selecionado para vários deles, incluindo o Santa Maria Vídeo e Cinema, no Rio grande do Sul e a Mostra do Filme Livre, no Rio de Janeiro.

Ainda assim, o lançamento oficial do filme em sala de cinema só aconteceria em agosto de 2007, também com a ajuda de Juliano Grus, que articulou os principais contatos para o evento. A exibição ocorreu na Cinemateca de Curitiba e, devido a lotação da sala, foram necessárias duas sessões para que todos pudessem assistir. Logo depois, a festa de celebração do lançamento ocupou o Porão Rock Club, com as bandas Xmáquina, Zigurate, Zirugdun Pfóin e o DJ Muzca agitando a galera.

Capa do DVD do filme Urbanographia

Depois do lançamento, o filme ainda circulou por diversos espaços, como o Festival Tribaltech e a Mostra de Cinema de Ouro Preto, tendo sido exibido também pelo Curta.doc da SESCTV e pela TV Comunitária de Curitiba. Publicado também no YouTube e no Vimeo, o curta já atingiu mais de 1500 visualizações na internet.

 

 

PENSANDO O CURTA, E ALÉM

Intervenção de Muzca registrada pelo UrbanographiaEmbora o resultado final tenha sido bastante satisfatório, percebi desde o início que o filme não realizaria plenamente as minhas aspirações. Talvez um dos elementos mais evidentes desta incompletude seja a quase ausência das vozes de oposição, embora a presença do transeunte Niwton Zaruch tente minimizar isso. Infelizmente, devido à falta de tempo, não foi possível colher outros depoimentos semelhantes. Ao revisitar o filme cinco anos depois percebo ainda que muitos dos elementos contidos no filme poderiam ser reorganizados, evitando o excesso desnecessário de falas concatenadas e permitindo a narrativa respirar um pouco. Sobram discursos, faltam planos contemplativos. A cidade, personagem principal, difusa e indistinta, surge intensa, mas com menos força do que eu havia planejado.

Intervenção registrada pelo curtaDesde o início, ciente de minha imaturidade como documentarista e do processo apressado em que o filme se realizou, eu já tinha consciência de que o filme seria mais um esboço do que uma obra terminada. Sempre tive a intenção de retomar o projeto para levá-lo adiante. Em parte, o Projeto Urbanogramas é um dos resultados dessa intenção. Aqui, além da história do curta e de minhas reflexões sobre a arte de rua, publicarei alguns materiais extras, imagens e falas dos entrevistados que não chegaram a ser incorporados ao curta devido a limitação de tempo imposta pela AIC (os projetos podiam ter até 15 min.). Além disso, estou trabalhando atualmente com a possibilidade de gravar uma versão nova e definitiva do filme, com 48 minutos.

Inevitavelmente, refletir sobre o Urbanographia me incentivou também a retomar os meus processos de intervenção urbana. Para comemorar este retorno, estou preparando uma nova leva de lambes e stencils, que também serão publicados aqui. Fique ligado nos próximos posts.


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