observações sobre as artes de intervenção urbana

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A voz feminina

A Voz Feminina - Intervenções do Coletivio de Ação Feminista

Na semana do dia Internacional da Mulher, o projeto Urbanogramas apresenta um pouco da agressiva e contundente arte  das meninas do Coletivo de Ação Feminista, radicado em Curitiba.

 

Intervenções Feministas próximas ao Teatro Guaíra

 

Compreendidas pela maior parte da população como um ato de vandalismo resultante da atuação de grupos de delinquentes,  as ações de intervenção na paisagem urbana costumam também ser interpretadas como um comportamento tipicamente masculino.  Mesmo o grafite e suas variações muralísticas, mais aceitas pela sociedade, são tradicionalmente vinculadas à imagem do homem, ou mais especificamente do menino, do garoto, do moleque. Até entre aqueles que circulam no meio é possível identificar uma visão claramente masculinizada de quem são aqueles que produzem a arte urbana. Na verdade, embora muitos respeitem as ações das meninas, poucos são aqueles entre os próprios artistas que encaram com naturalidade a presença feminina no meio. Bom, embora elas não estejam tão presentes quanto eles, a verdade é que não são só os meninos que gostam de desenhar nas paredes.

Lambes e stencils do Coletivo de Ação Feminista

Nos últimos dois anos o Coletivo de Ação Feminista têm realizado diversas intervenções no centro da cidade de Curitiba, com lambes e stencils surgindo por toda parte, em especial no entorno da CEUC, a Casa da Estudante Universitária de Curitiba, localizada próxima ao DCE e a Reitoria da UFPR. Um dos espaços mais expressivos e característicos das ações delas está instalado no início da rua Amintas de Barros, na parede do imóvel onde se localizava o antigo Mercadorama, a menos de cem metros do teatro Guaíra e do Passeio Público, conhecidos pontos turísticos da capital paranaense.

Atacado por intervenções de todo o tipo desde o fechamento do supermercado em 2008, o espaço se tornou um dos principais alvos das meninas do coletivo. Ali as marcas individuais evidenciam as diferentes angustias, desejos e indignações diante do forma como a imagem da mulher é apropriada pela sociedade patriarcal. Ali, as manifestações de identidade se conjugam na criação de discursos afirmativos e reivindicatórios a respeito de uma nova condição feminina em nossa sociedade.

 

Mais visibilidade

 

POÉTICAS DO FEMININO

Embora os questionamentos e reflexões a respeito do papel e da identidade social da mulher se manifestem há muito mais de cem anos na sociedade ocidental a maior parte das manifestações contemporâneas de feminismo podem ser vinculadas direta ou indiretamente aos diversos movimentos de defesa pelos direitos sociais que eclodiram nos anos 60. Para as feministas Maggie Humm e Rebecca Walker, este momento histórico marca o início da chamada segunda onda do feminismo, caracterizada pelas lutas e protestos de um movimento de liberação feminina cuja esfera de interesse se deslocava do mero direito jurídico para passar a questionar processos sociais discriminatórios e o tratamento público da imagem feminina. A partir da década de 90, em uma reação às posturas radicais e reducionistas de alguns setores desse movimento, a chamada terceira onda passará também a considerar questões relacionadas à subjetividade social da mulher em processos de diferenciação racial, étnica, religiosa ou econômica, inaugurando o chamado feminismo da diferença.

A Violência do Patriarcado

Ainda que uma certa leitura das idéias da terceira onda esteja presente no tratamento dado a algumas das intervenções encontradas no centro de Curitiba, a influência dos pensamentos e posturas da segunda onda é a que se manifesta com maior evidência no trabalho do Coletivo de Ação Feminista. Elementos como a postura agressiva, a foco na macropolítica, a influência de idéias anarquistas e do movimento gay e a presença de slogans como “Seu silêncio não vai te proteger”, da escritora e ativista Audre Lorde, ou “O Pessoal é Político”, expressão de Carol Hanisch que se tornou um símbolo do movimento, são alguns dos elementos típicos dessa fase que figuram entre as escolhas feitas pelas meninas para compor suas mensagens.

 

O Pessoal é Político

 

Em parte, isso se dá pela força inerente, a assimilação direta e a objetividade que essas idéias e lemas possuem. É provável que isso ocorra também em função ampla difusão e do grande impacto histórico alcançado pelos discursos da segunda onda, largamente propagados por um conjunto de mídias que passava a ampliar cada vez mais seus processos de massificação, enquanto a recente terceira onda, que se consolidou em um momento em que o foco da comunicação social se deslocava das grandes mídias de massa para as dispersas e pessoais mídias digitais, ainda não teve a oportunidade ou tempo histórico necessário para ser difundida e assimilada de forma mais ampla.

No hay Libertad Politica sin Libertad SexualOutro elemento que podemos encontrar nas intervenções das meninas são os slogans e idéias propagadas pelos movimentos que defendem os direitos dos homossexuais, como “No Hay Libertad Politica sin Libertad Sexual” ou as imagens em lambes e stencils que representam duas mulheres se beijando, o que demonstra uma forte ligação entre esses dois movimentos dentro do coletivo e aponta uma possível conexão atuando também no âmbito da coletividade social como um todo. É inevitável supor também que essa relação propicie uma afinidade ainda  maior do coletivo com os discursos da segunda onda, momento em que se consolidou uma forma histórica de atuação dos dois movimentos, em especial no estimulo a ações de protesto e desobediência civil como forma de manifestação.

 

Siga Seu Próprio Padrão de Beleza

 

Há ainda a presença marcante das críticas ao ideal de beleza feminina propagado pela sociedade contemporânea, seja em frases diretas estampadas no muro, como “Siga o seu próprio padrão de beleza”, seja na invasiva pichação ”Não sou imagem!”, encontrada embaixo de um cartaz de produtos para cabelos de um salão de beleza que fica na mesma quadra do painel das meninas. Opondo-se a um estereótipo do feminino construído e propagado pelas grandes mídias, essas manifestação evocam novamente elementos marcantes no discurso feminista desde o início da segunda onda, embora essas sejam críticas presentes também, em maior ou menor intensidade, em todas as outras manifestações do feminismo ao longo da história.

 

Intervenções do Coletivo de Ação Feminista no centro de Curitiba

 

Problematizando a imagem e a atuação das mulheres no mundo contemporâneo e convocando suas semelhantes a assumir um comportamento mais ativista, as ações das meninas do Coletivo de Ação Feminista demonstram que, apesar das conquistas inquestionáveis do movimento, vivemos hoje em um momento histórico no qual a voz feminina, abafada, ignorada ou distorcida pelos discursos dominantes, ainda luta bravamente para alcançar os ouvidos moucos de uma sociedade patriarcal, ainda anseia por um espaço de expressão que realize de forma mais completa e determinante a necessidade social de reflexão e debate sobre seus discursos, ainda precisa protestar agressivamente contra o tratamento condescendente e paternalistas que nossa sociedade fornece como resposta mais comum aos questionamentos do pensamento feminista contemporâneo.

 


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