Quem tem Q.I. vai – Leminski e o grafite

Salve, galera! Depois de um fim de semestre intenso na facul e de quase perder todo o material bruto e atrasar a entrega de duas edições devido a um colapso geral do meu sistema operacional, finalmente tive tempo de me organizar para trazer à vocês mais algumas reflexões urbanológicas que andei encontrando por aí. Nesta semana apresentarei algumas das idéias do mestre rinzai Paulo Leminski sobre a arte do grafite. Fiquem de olho para mais posts nas próximas semanas!
Investigador obstinado das múltiplas funções e manifestações sociais da linguagem escrita, o escritor-tradutor-compositor-publicitário-filósofo-professor-poeta-zen-judoca curitibano Paulo Leminski não apenas estudou como também realizou grafites como parte de sua obra poética ao longo da década de 80. “Numa esquina movimentada, umas quinze mil pessoas por dia podem ler um grafite”, dizia o escritor, que referenciava constantemente em seus discursos o mote mcluhaniano “o meio é a mensagem”. Fascinado pelas possibilidades comunicativas do suporte, as intervenções de Leminski figuraram nos muros de várias cidades em diferentes momentos e espaços, tanto de forma não autorizada, a partir das mãos do próprio artista, quanto em espaços oficiais — por muito tempo o poema “não discuto / com o destino / o que pintar / eu assino” fez parte da paisagem do Largo da Ordem em Curitiba, junto a uma imagem do rosto do artista. O conjunto compunha um mural de mais de quatro metros de altura acima do espaço onde funcionava a extinta Feira do Poeta — ou como parte de eventos, como os vários “Perhappines”, ocorridos entre 1989 e 2004, que, junto à diversas outras ações, expuseram poemas de Leminski em outdoors e painéis urbanos, como o impagável “confira / tudo que / respira / conspira”.
Embora o registro de muitos desses murais e intervenções pareça não estar aberto ou facilmente localizável na rede (é bastante provável que muitos dos envolvidos com o poeta e com os eventos relacionados a ele possuam inúmeras imagens dessas intervenções em seus acervos particulares, talvez mesmo em redes sociais por aí), é possível encontrar na web algumas poucas imagens de intervenções baseadas em Leminski ou que utilizam os seus poemas diretamente, como a que pode ser vista aqui ou aqui. Para saber mais sobre a vida e a obra desse mestre zazen-polaco-tupiniquim visite o site Kamiquase, uma das mais completas fontes de informações sobre o escritor que eu já encontrei na net. Confira abaixo as opiniões do poeta na voz do próprio Leminski.
Este primeiro vídeo já vem circulado na rede faz alguns meses. É um trecho de uma fala de Leminski realizada em um dos anfiteatros do Edifício Dom Pedro I, na reitoria da UFPR, provavelmente o do 10° ou o do 11° andar, que é onde se localiza o curso de Letras. Não consegui descobrir em qual ocasião se deu a fala ou quem eram os outros ocupantes da mesa, mas a citação da presidência de José Sarney (que governou o país entre 1985 e 1990) e a morte de Leminski em junho de 1989 permite situar o discurso em algum momento dos últimos quatro anos de vida do artista curitibano. Avaliando dados menos precisos, como o tamanho avantajado do bigode e dos cabelos, talvez ainda maiores do que podemos ver nos vídeos de sua coluna vídeo-jornalística no Jornal de Vanguarda [vídeo abaixo] eu arriscaria até mesmo uma data mais precisa, como um de seus dois últimos anos de vida, muito provavelmente algum dia do ano de 1988, cerca de um ano após a publicação de Distraídos Venceremos.
Ainda que a visão histórica de Leminski sobre da arte de rua relacione de forma parcial a origem dessas manifestações com um momento político-histórico bastante recente (o que aponta para uma visão mais restritiva daquilo que Leminski considerava válido como expressão artística na arte de rua), algumas dessas lúcidas falas do poetas sobre as manifestações da poética na intervenção urbana antecipam reflexões que apenas mais tarde viriam a figurar em discursos de estudiosos e acadêmicos que se debruçaram sobre o tema, fato que posiciona Leminski na vanguarda das tentativas de se constituir uma compreensão estética formal das manifestações de arte urbana.
Esse segundo vídeo é a primeira parte (outras três estão disponíveis) de uma compilação da coluna de Leminski no programa Jornal de Vanguarda (posteriormente denominado apenas de Vanguarda), uma reedição de um antigo programa da TV Bandeirantes que veiculou entre 1963 e 1968 e foi encerrado após a publicação do Ato Institucional N° 5. Essa segunda edição do programa foi ao ar entre o final de 1987 e o início de 1989 e era apresentada pela andrógina-androide Dóris “Bowie” Giesse. O trecho em que Leminki fala sobre o grafite é curto mas vale a pena, especialmente pela maravilhosa e jamais esquecida e ainda viva e sendo grafitada homenagem prestada por ele aos grafiteiros. Não deixe de conferir também o resto do material, que tem momentos inesquecíveis, como a análise do nosso hino da independência ou o momento em que o poeta “veste a camisa”. Para assistir aos outros vídeos do programas e mais vídeos relacionados a obra de Leminski, acesse a página de vídeos do site Kamiquase.
Transversalidades Latinas – Sob o Céu da Patagônia [parte II]

No post anterior do projeto Urbanogramas apresentei algumas imagens da minha viagem pelo sul da américa latina como membro da expedição Sob o Céu da Patagônia, que percorreu mais de onze mil quilômetros de estradas argentinas, chilenas, uruguaias e brasileiras. Como a maior parte das imagens do primeiro post sobre esta jornada apresenta os registros dos grandes centros urbanos argentinos, as fotos selecionadas para essa segunda parte são principalmente imagens de intervenções encontradas nas cidades menores, como Esquel, Perito Moreno e Pucón.


Como comentei no primeiro post, um dos elementos que mais se destaca nas intervenções que encontrei nesses lugares é a manifestação constante de discursos voltados para uma crítica política ou de aspectos sociais da cultura local. Embora também seja possível encontrar lambes e stencils nestes pequenos núcleos urbanos, a maior parte das intervenções são compostas por frases diretas inscritas nos muros com pincel, rolo ou spray, o que coloca em evidência a valorização do caráter discursivo dessas manifestações em detrimento do aspecto estético.
Diferente das falas encontradas nos grandes aglomerados, que são mais facilmente interpretadas devido ao seu caráter universal, o que se reflete nesses outros espaços são exatamente as inquietações locais e regionais, tornando necessário conhecer um pouco mais sobre a própria sociedade onde essas falas se inserem para se compreender efetivamente a razão social desses discursos. Um exemplo desse processo pode ser encontrado na imagem abaixo.
Essa foto foi tirada em frente a uma lanchonete de beira de estrada situada na Ruta 40, entre as cidades de San Carlos de Bariloche e Esquel. O destaque em escala de cinzas é uma tentativa de deixar mais claro os dizeres: “Resistência Mapuche: Fuera Ursupadores del Walmapu”. Para quem não sabe, os Mapuches são uma das maiores etnias indígenas da América do Sul, tendo desenvolvido nos territórios da Patagônia uma sociedade comparável à que os Guaranis e Aimarás desenvolveram nas regiões silvícolas do continente. Infelizmente, assim como outros povos no resto da América Latina, sua população foi quase dizimada, restando apenas alguns grupos de resistência que lutam pela conservação do pouco que ainda resta da cultura mapuche. “Walmapu”, que pode ser traduzido como “todo o território que nos cerca”, é o nome dado pelos Mapuches àquilo que é reconhecido por eles como a Nação Mapuche, o espaço geográfico de manifestação histórica e cultural, o território ancestral a ser defendido de invasores.
De forma semelhante, é possível encontrar em grande parte das cidades da patagônia próximas à cordilheira intervenções que fazem referência às minas e empresas de mineração que atuam na região. Como as condições climática e geográficas da patagônia tornam a região menos propícia à produção agricultura ou pecuária em larga escala, incentivos e subsídios fiscais à grandes mineradoras tem sido recorrentes na história de como os governos da Argentina e do Chile lidam com as perspectivas econômicas da região. E como esses processos são reconhecidamente agressivos e danosos aos biomas e populações locais, podemos dizer que é mais do que natural o surgimento e a aceitação social de protestos e manifestações contrárias à tudo isso. Infelizmente, medidas como essas ainda são mais comuns do que tentativas de viabilizar uma economia baseada no turismo ambiental e na sustentabilidade local. (Na foto abaixo, além do protesto, fica evidente a origem da intervenção na assinatura FUT-PO, sigla da Frente Unidad Trabajadora do Partido Obrero).
Além destes discursos voltado para os aspectos locais, outro símbolo recorrente que chama a atenção nas intervenções desta região é a imagem do médico, escritor, político, guerrilheiro, revolucionário e socialista Ernesto “Che” Guevara, carinhosamente referenciado como “El Che”. Simbólicamente vinculada à ações e atitudes de protesto e luta contra a opressão social das políticas capitalistas, a presença constante da figura do revolucionário revela como o próprio Che Guevara passou a ser reconhecida como uma inevitável referência histórica das muitas manifestações de uma luta ancestral para a maior parte dos povos latino-americanos: a busca pelo reconhecimento de uma identidade latina, unida em sua diversidade, em oposição à uma identidade estrangeira e homogeneizada, estereotipificadora, submetida à colonização cultural de países imperialistas.
Algumas dessas intervenções revelam também um certo caráter idealizador neste movimento de identificação em direção à figura de Che Guevara, como inscrições encontradas na cidade de Córdoba, segunda maior metrópole argentina, fazendo referência ao período em que a família de Guevara teria vivido na cidade (1941-1946) para que o próprio Ernesto, então com 13 anos, deixasse de sofrer com sua asma, mal que o acompanhou a vida inteira.
Curiosamente, mais do que as elaboradas e mais decifráveis intervenções que encontrei em Córdoba, SantaFé e outras cidades maiores, o que me me marcou com maior intensidade nessa jornada pelo continente latino-americano foi o desenvolvimento da percepção de que a relação de certas obra de intervenção com seu contexto histórico-social é tão direta e intrínseca [eu arriscaria até dizer que beiram a indissociabilidade] que, mesmo para quem busca desenvolver um olhar mais atento, a total apreensão e apreciação dessas obras de intervenção (e por que não dizer de toda obra de intervenção?) torna-se praticamente impossível para o estrangeiro, o estranho, o não-local, o outro. Ainda que se busque mais informações e se pretenda alcançar uma compreensão mais ampla, sempre haverá algo de insuspeito, de invisível, que passará desapercebido para aquele que não vive integralmente as condições sociais do espaço onde aquela intervenção se manifesta.
Transversalidades Latinas – Sob o Céu da Patagônia – parte I


Entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011 percorri mais de 11.500 quilômetros pelas estradas sul-americanas com outros três amigos. A expedição Sob o Céu da Patagônia cruzou trechos do Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, sendo que pouco mais de três quartos desta viagem (cerca de 9.000 quilômetros) foram rodados nas bem conservadas estradas Argentinas. Atravessamos treze das vinte-e-três províncias do país, e estivemos nas capitais de oito delas. No Chile, nossa passagem mais apressada nos levou a povoações menores e mais periféricas (embora não menos férteis).

Ainda que a expedição tivesse como principais objetivos algumas das mais impressionantes paisagens naturais da américa do sul, nos dias que passamos percorrendo aglomerados urbanos dos mais variados tamanhos, extensões e densidades demográficas, tentei registrar as intervenções que testemunhei em minha passagem, embora a maior parte delas não tenha sido capturada por questões circunstanciais que me impediram de utilizar a câmera.

Durante esta jornada pude confirmar que a presença de intervenções nas superfícies públicas e fronteiriças do meio urbano é um fenômeno comum à praticamente todas as manifestações da urbanidade na paisagem social humana, desde os pequenos e quase despovoados vilarejos até as superpopuladas megalópoles, algo que me parecia evidente, mas que eu nunca tivera a chance de comprar pessoalmente.

Como a extensão geográfica da expedição atravessou uma enorme variedade de diferentes ambientes sociais, pude testemunhar uma grande diversidade de manifestações diferenciadas de obras de intervenção urbana, desde a simples “pichação”, geralmente de cunho político, até os mais detalhados painéis em grafite. Transbordando de elaboradas superfícies representativas, as grandes metrópoles, como Córdoba, Mendoza e Santa Fé, apresentavam os panoramas mais ricos e variados.


Embora sejam também os espaços onde as manifestações meramente invasivas, territorialistas e individuais, como tags pessoais e de gangues, aparecem com maior frequência, a enorme variedade de intervenções proporciona uma visibilidade mais ampla para essas manifestações, e provavelmente uma aceitação maior.



Curiosamente, foi nas povoações menores, como Esquel, Perito Moreno, Pucón ou El Calafate, que tive a oportunidade de testemunhar o maior número de intervenções cujo discurso apresentasse uma preocupação social ou política, em parte talvez devido a rejeição natural dessas comunidades às intervenções de cunho mais pessoal.


Confira o final de meu relato e mais algumas imagens no próximo post do projeto urbanogramas.
Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos – ações poéticas do Poro
Formado pela dupla-coletivo de artistas Brígida Campbell e Marcelo Terça-Nada, o Poro atua no cenário brasileiro da arte de intervenção urbana desde 2002, executando ações que se articulam em vários planos com diferentes instâncias da urbanidade. Operando na fronteira entre o observado e o desapercebido, o reconhecimento e o estranhamento, o impactante e o sutil, seus trabalhos atuam no campo da evidenciação das relações entre os suportes da arte, as funções sociais do discurso artístico no meio urbano e o espaço-momento-acontecimento onde a obra se efetiva. Uma mistura de inutensílios de Leminski com o happening de Kaprow, ou do ready made de Duchamp com as propagandas impropagáveis leminskianas, as ações-provocações do Poro se situam na margem do cotidiano urbano e no intervalo-pausa em que este pequeno deslocamento de perspectiva se faz necessário para que a apreensão da obra e de seus efeitos sobre o observador se realize.
“Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos – ações poéticas do Poro“, livro lançado em Curitiba na última sexta-feira, dia 08, dentro do evento MOB – Arte, Bicicleta e Mobilidade no Solar do Barão, apresenta o conjunto da produção artística, intervenções urbanas e proposições políticas realizados pelo Poro nos últimos nove anos. Premiado pelo Programa Brasil Arte Contemporânea da Fundação Bienal de São Paulo e Ministério da Cultura, o livro traz também, além do extenso registro fotográfico das ações do Poro, os contundentes textos inéditos de Daniela Labra (pesquisadora e curadora – Rio de Janeiro), André Mesquita (pesquisador e ativista – São Paulo), Newton Goto (artista, pesquisador e curador – Curitiba), André Brasil (pesquisador da área de comunicação – Belo Horizonte), Wellington Cançado & Renata Marquez (arquitetos, curadores e pesquisadores – Belo Horizonte), Anderson Almeida (escritor – Belo Horizonte), Luiz Carlos Garrocho & Daniel Toledo (pesquisadores e criadores cênicos – Belo Horizonte), Ricardo Aleixo (poeta, curador e ativista cultural – Belo Horizonte).
Variando do autobiográfico, do episódico e do poético ao ensaístico teórico-reflexivo, os textos delineiam olhares e perspectivas diferenciadas sobre a obra do Poro, construindo uma visão em mosaico, fragmentada mas não dispersiva, dos processos artísticos e dos impactos sociais e teóricos das ações do coletivo-dupla. Alguns dos ensaios, como “Insignificâncias: a política nas intervenções do Poro”, de André Brasil, “Poro: na linha dos olhos”, de Daniel Toledo e Luiz Carlos Garrocho, ou “Arquiteturas adesivas”, de Renata Marquez e Wellinton Cançado, ultrapassam pela amplitude de suas visões a simples observação sobre a obra abordada, projetando-se no escasso campo das necessárias reflexões teóricas mais profundas sobre as artes de intervenção urbana.
O livro pode ser adquirido diretamente no site do Poro ou nas livrarias listadas abaixo:
Salvador: Lojinha do MAM (Museu de Arte Moderna da Bahia)
Rio de Janeiro: Livraria da Travessa (R. Visc. de Pirajá, 572)
São Paulo:
Livraria do Espaço Unibanco de Cinema (R. Augusta, 1475)
Livraria do Cinema Reserva Cultural (Av. Paulista, 900)
Livraria Ato de Ler (R. Br. de Itapetininga, 255, loja 24)
Livraria Loyola (R. Sen. Feijó, 120)
Livraria da Unesp (Pça. da Sé, 108)
Arsenal do Livro (Av. 9 de Julho, 925)
Mais informações na página do livro e no site do Poro.
Janela de Prospecção

“Essas paredes mais parecem um solo revolvido”
- Nelson Brissac Peixoto
Na preservação e no restauro de edifícios históricos costuma-se selecionar um trecho das paredes, normalmente em formato retangular, para avaliar, através da cuidadosa extração da camada exposta, as características e condições das camadas de pintura mais antigas e permitir a visualização de suas configurações originais ou anteriores à pintura aplicada mais recentemente . A este espaço de observação das condições regressas da obra arquitetônica dá-se o nome de Janela de Prospecção. Através dela, arquitetos e restauradores espreitam o passado, obtendo vislumbres das anterioridades históricas dessas superfícies.
Este é o muro de um estacionamento situado em frente ao teatro Guairinha, na esquina das ruas XV de Novembro com Tibagi, centro de Curitiba. Por muito tempo foi um espaço utilizado por grafiteiros para manifestar sua arte, desde a mais simples pichação e a aplicação de tags, lambes e stencils até a grafitagem de elaborados painéis figurativos. Em 2010, durante o período de eleições, duas faixas de propaganda política foram instaladas no muro, que foi pintado de amarelo. Curiosamente, a pintura do muro foi realizada somente depois da instalação das faixas (que após as eleições foram removidas), criando inadvertidamente essa reveladora janela para a anterioridade imagética oculta no muro.
Ainda que pareça trivial, esse fato revela sutilmente uma das principais características da paisagem urbana: a permanente efemeridade de suas superfícies. A conceituação típica das imagens urbana remetem continuamente a idéia de concretude e imutabilidade, com seus enormes blocos edificados de concreto e suas paisagens achatadas desprovidas de horizonte. A imagem natural de referência é a montanha, a rocha, imóvel e irremovível. Imaginar a cidade é reviver este arquétipo de cidade em nossas imagens mentais. Não há espaço para o transitório. Mesmo que ele habite continuamente o nosso campo de visão, o olhar o ignora, reorganizando a imagem mental do muro a cada vez que este é visto novamente, assimilando a mudança contínua como permanência, refazendo todas as imagens anteriores deste muro até que elas se assemelhem a imagem atual. Este muro sempre foi assim.
Mas o fato é que, como todas as criações humanas, as superfícies que compõe a paisagem urbana estão sujeitas a uma permanente revisão de suas características representativas. A fachada de um edifício cujas cores se tornaram “obsoletas” é repintada para evidenciar a “modernidade” do pensamento de seus ocupantes. Luminosos e letreiros com projetos considerados arrojados à época de suas criação são substituídos por placas de um desenho mais “contemporâneo”, para evitar que a instituição que eles representam seja interpretada como antiquada. Mesmo as pavimentações e calçamentos, o paisagismo de árvores e gramados, postes, placas de trânsito, lixeiras e pontos de ônibus são redesenhados pelos urbanistas do poder público para se adaptar ao olhar que rejeita o antigo, o olhar que anseia pelo novo de tal forma que precisa projetar este novo sobre a imagem do antigo, suplantá-la, apagá-la, atualizá-la e eternizá-la em sua nova configuração.
Assim como este insuspeito muro, cada superfície do urbano oculta em si a história de sua própria anterioridade, coberta e apagada por uma renovação obsessiva disfarçada de continuidade. Como um sítio arqueológico onde cada camada de solo desvenda toda uma era, o muro se revela uma construção palimpséstica na qual a sobreposição das camadas denuncia a impossibilidade da permanência. Ainda que invisíveis ao olhar dessensibilizado do habitante das cidades, essas camadas guardam consigo os vestígios de uma paisagem urbana cuja expressão evidencia as múltiplas visões sociais possíveis sobre a função deste mesmo muro no imaginário representativo do coletivo. A cada nova camada, uma nova função de representação se concretiza.
Há também um jogo político de poder sobre a imagem no espaço público e as representações sociais operando nessas superfícies. A representação de propriedade privada é suplantada pela representação proibida da expressão de identidade individual e coletiva das intervenções, que por sua vez é suplantada pela representação socialmente mais aceita da propaganda política travestida novamente em representação da propriedade privada através da pintura mal realizada do muro, muito provavelmente paga pelo político cujas faixas ausentes nos permitem observar todo este panorama dissociativo em conjunto com o vislumbre de uma camada ainda mais recente e em processo constitutivo de intervenções que tentam reorganizar novamente toda a superfície.
Quando a fachada do prédio central da Universidade Federal do Paraná foi repintada, cerca de cinco anos atrás, a raspagem das camadas mais recentes revelou um universo histórico-social não reconhecido pelos órgãos oficiais. Inscrições com frases de protesto contra o regime militar, reivindicações pela libertação de presos políticos e slogans comunistas e anarquistas surgiram por todas as paredes externas do edifício, a maior parte delas realizada provavelmente pelos integrantes dos movimentos estudantis da época, alunos da própria Universidade Federal. Infelizmente, o registro dessas expressões de uma visão histórica específica manifestada na paisagem urbana foi considerado pelas autoridades menos importante do que a readequação da imagem externa do prédio a um padrão institucional que representasse o seu pertencimento ao aparelho estatal, impessoal, intocável e absoluto.
Instalada como fronteira entre identidades individuais e coletivas e operando como suporte de representações sociais e conflitos de poder, a superfície opaca do muro ultrapassa o simples status material de sua condição in natura para projetar-se como espelho em uma fenomenologia reflexiva que se revela transparente às próprias funções sociais e imateriais do muro e de suas possíveis manifestações na organização do urbano. Pelos reflexos imanentes da imaterialidade de suas superfícies, a cidade desvenda as arquiteturas ocultas dos seus mecanismos de estruturação do espaço de representações no coletivo. Destituída de suas funções primárias e reantropomorfizada continuamente ao longo de seus processos de relação social com o espaço, a superfície-espelho-vidro do muro torna-se janela para o universos das representações humanas.












