observações sobre as artes de intervenção urbana

Posts tagged “Posadas

Transversalidades Latinas – Sob o Céu da Patagônia [parte II]

Transversalidades Latinas - parte II




Abajo el Golpe de Honduras - Mendoza



No post anterior do projeto Urbanogramas apresentei algumas imagens da minha viagem pelo sul da américa latina como membro da expedição Sob o Céu da Patagônia, que percorreu mais de onze mil quilômetros de estradas argentinas, chilenas, uruguaias e brasileiras. Como a maior parte das imagens do primeiro post sobre esta jornada apresenta os registros dos grandes centros urbanos argentinos, as fotos selecionadas para essa segunda parte são principalmente imagens de intervenções encontradas nas cidades menores, como Esquel, Perito Moreno e Pucón.


No Educarás - Córdoba
Universidad Libre - Córdoba


En Santa Fe Desaparecen Mujeres - Santa FéComo comentei no primeiro post, um dos elementos que mais se destaca nas intervenções que encontrei nesses lugares é a manifestação constante de discursos voltados para uma crítica política ou de aspectos sociais da cultura local. Embora também seja possível encontrar lambes e stencils nestes pequenos núcleos urbanos, a maior parte das intervenções são compostas por frases diretas inscritas nos muros com pincel, rolo ou spray, o que coloca em evidência a valorização do caráter discursivo dessas manifestações em detrimento do aspecto estético.

Diferente das falas encontradas nos grandes aglomerados, que são mais facilmente interpretadas devido ao seu caráter universal, o que se reflete nesses outros espaços são exatamente as inquietações locais e regionais, tornando necessário conhecer um pouco mais sobre a própria sociedade onde essas falas se inserem para se compreender efetivamente a razão social desses discursos. Um exemplo desse processo pode ser encontrado na imagem abaixo.


Resistência Mapuche - Ruta 40



Essa foto foi tirada em frente a uma lanchonete de beira de estrada situada na Ruta 40, entre as cidades de San Carlos de Bariloche e Esquel. O destaque em escala de cinzas é uma tentativa de deixar mais claro os dizeres: “Resistência Mapuche: Fuera Ursupadores del Walmapu”. Para quem não sabe, os Mapuches são uma das maiores etnias indígenas da América do Sul, tendo desenvolvido nos territórios da Patagônia uma sociedade comparável à que os Guaranis e Aimarás desenvolveram nas regiões silvícolas do continente. Infelizmente, assim como outros povos no resto da América Latina, sua população foi quase dizimada, restando apenas alguns grupos de resistência que lutam pela conservação do pouco que ainda resta da cultura mapuche. “Walmapu”, que pode ser traduzido como “todo o território que nos cerca”, é o nome dado pelos Mapuches àquilo que é reconhecido por eles como a Nação Mapuche, o espaço geográfico de manifestação histórica  e cultural, o território ancestral a ser defendido de invasores.


No a la Mina - Esquel



De forma semelhante, é possível encontrar em grande parte das cidades da patagônia próximas à cordilheira intervenções que fazem referência às minas e empresas de mineração que atuam na região. Como as condições climática e geográficas da patagônia tornam a região menos propícia à produção agricultura ou pecuária em larga escala, incentivos e subsídios fiscais à grandes mineradoras tem sido recorrentes na história de como os governos da Argentina e do Chile lidam com as perspectivas econômicas da região. E como esses processos são reconhecidamente agressivos e danosos aos biomas e populações locais, podemos dizer que é mais do que natural o surgimento e a aceitação social de protestos e manifestações contrárias à tudo isso. Infelizmente, medidas como essas ainda são mais comuns do que tentativas de viabilizar uma economia baseada no turismo ambiental e na sustentabilidade local. (Na foto abaixo, além do protesto, fica evidente a origem da intervenção na assinatura FUT-PO, sigla da Frente Unidad Trabajadora do Partido Obrero).


No a las Mineras - Perito Moreno



A Organizarse Luchar - PucónAlém destes discursos voltado para os aspectos locais, outro símbolo recorrente que chama a atenção nas intervenções desta região é a imagem do médico, escritor, político, guerrilheiro, revolucionário e socialista Ernesto “Che” Guevara, carinhosamente referenciado como “El Che”. Simbólicamente vinculada à ações e atitudes de protesto e luta contra a opressão social das políticas capitalistas, a presença constante da figura do revolucionário revela como o próprio Che Guevara passou a ser reconhecida como uma inevitável referência histórica das muitas manifestações de uma luta ancestral para a maior parte dos povos latino-americanos: a busca pelo reconhecimento de uma identidade latina, unida em sua diversidade, em oposição à uma identidade estrangeira e homogeneizada, estereotipificadora, submetida à colonização cultural de países imperialistas.


El Che Vive - Córdoba

Che 80 anos - Santa Fé



Algumas dessas intervenções revelam também um certo caráter idealizador neste movimento de identificação em direção à figura de Che Guevara, como inscrições encontradas na cidade de Córdoba, segunda maior metrópole argentina, fazendo referência ao período em que a família de Guevara teria vivido na cidade (1941-1946) para que o próprio Ernesto, então com 13 anos, deixasse de sofrer com sua asma, mal que o acompanhou a vida inteira.

El Che - Córdoba



Curiosamente, mais do que as elaboradas e mais decifráveis intervenções que encontrei em Córdoba, SantaFé e outras cidades maiores, o que me me marcou com maior intensidade nessa jornada pelo continente latino-americano foi o desenvolvimento da percepção de que a relação de certas obra de intervenção com seu contexto histórico-social é tão direta e intrínseca [eu arriscaria até dizer que beiram a indissociabilidade] que, mesmo para quem busca desenvolver um olhar mais atento, a total apreensão e apreciação dessas obras de intervenção (e por que não dizer de toda obra de intervenção?) torna-se praticamente impossível para o estrangeiro, o estranho, o não-local, o outro. Ainda que se busque mais informações e se pretenda alcançar uma compreensão mais ampla, sempre haverá algo de insuspeito, de invisível, que passará desapercebido para aquele que não vive integralmente as condições sociais do espaço onde aquela intervenção se manifesta.




Transversalidades Latinas – Sob o Céu da Patagônia – parte I

Transversalidades Latinas



Transversalidades Latinas - Esquel


Entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011 percorri mais de 11.500 quilômetros pelas estradas sul-americanas com outros três amigos. A expedição Sob o Céu da Patagônia cruzou trechos do Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, sendo que pouco mais de três quartos desta viagem (cerca de 9.000 quilômetros) foram rodados nas bem conservadas estradas Argentinas. Atravessamos treze das vinte-e-três províncias do país, e estivemos nas capitais de oito delas. No Chile, nossa passagem mais apressada nos levou a povoações menores e mais periféricas (embora não menos férteis).


Quiero tu Agua - Posadas


Ainda que a expedição tivesse como principais objetivos algumas das mais impressionantes paisagens naturais da américa do sul, nos dias que passamos percorrendo aglomerados urbanos dos mais variados tamanhos, extensões e densidades demográficas, tentei registrar as intervenções que testemunhei em minha passagem, embora a maior parte delas não tenha sido capturada por questões circunstanciais que me impediram de utilizar a câmera.


Jaulas Vacias - Córdoba
Durante esta jornada pude confirmar que a presença de intervenções nas superfícies públicas e fronteiriças do meio urbano é um fenômeno comum à praticamente todas as manifestações da urbanidade na paisagem social humana, desde os pequenos e quase despovoados vilarejos até as superpopuladas megalópoles, algo que me parecia evidente, mas que eu nunca tivera a chance de comprar pessoalmente.


Vivir es Pasar Verguenza - Santa Fé
Como a extensão geográfica da expedição atravessou uma enorme variedade de diferentes ambientes sociais, pude testemunhar uma grande diversidade de manifestações diferenciadas de obras de intervenção urbana, desde a simples “pichação”, geralmente de cunho político, até os mais detalhados painéis em grafite. Transbordando de elaboradas superfícies representativas, as grandes metrópoles, como Córdoba, Mendoza e Santa Fé, apresentavam os panoramas mais ricos e variados.


Quien se Acuerda de Nosotrxs - Córdoba


Tributo a Mi - Santa Fé
Embora sejam também os espaços onde as manifestações meramente invasivas, territorialistas e individuais, como tags pessoais e de gangues, aparecem com maior frequência, a enorme variedade de intervenções proporciona uma visibilidade mais ampla para essas manifestações, e provavelmente uma aceitação maior.






Grafite - Córdoba


Que Harias si Tuvieras Tiempo - Córdoba


Power to the People - Santa Fé


Curiosamente, foi nas povoações menores, como Esquel, Perito Moreno, Pucón ou El Calafate, que tive a oportunidade de testemunhar o maior número de intervenções cujo discurso apresentasse uma preocupação social ou política, em parte talvez devido a rejeição natural dessas comunidades às intervenções de cunho mais pessoal.


Y mi voz no vale? - Córdoba


Dia a dia nos mienten - Córdoba


Confira o final de meu relato e mais algumas imagens no próximo post do projeto urbanogramas.


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.