O Olho da Rua – uma rede social para a cultura urbana

Ao longo da última década o ciberespaço foi invadido por diferentes modelos e inúmeras plataformas de publicação e compartilhamento de informações. Algumas, como as mais conhecidas e utilizadas redes sociais Orkut, Facebook e MySpace ou o mecanismo de microblogging Twitter, foram tão bem sucedidos em suas táticas para adquirir novos usuários que possuir uma conta em um ou (o que certamente é mais comum) vários desses serviços tornou-se algo praticamente tão obrigatórios ao internauta mais assíduo quanto ter uma simples conta de e-mail.
Muitas outras dessas plataformas (a grande maioria, na verdade) como o SciSpace, rede social colaborativa inteiramente voltada para a troca de informações entre cientistas, ou a deliberadamente segregacionista BlackPlanet, uma das primeiras e mais antigas redes sociais ainda ativas e cujo público principal (inicialmente a comunidade daqueles que os norte-americanos chamam de afro-americanos, muito mais negros, dermatologicamente falando, do que os afro-brasileiros) seria a comunidade de pessoas afro-descendentes ao redor do mundo (característica não tão fácil de determinar com precisão, como nós aqui sabemos bem), tornaram-se sucessos silenciosos (a BlackPlanet teria alcançado a marca dos 20 milhões de usuários em 2008) devido principalmente ao enorme potencial de público que tinham e às escolhas acertadas de seus criadores em relação às formas de captar a antenção deste público, mas também desconhecidos por restringirem-se a setores bastante específicos e auto-referenciativos da sociedade contemporânea.
No dia 11 de março deste ano entrou no ar O Olho da Rua, a primeira rede social do brasil (e até onde eu sei, do mundo) voltada exclusivamente para a cultura de rua e a intervenção urbana. Desenvolvida pela Retina Comunicação e lançada durante o evento Sopa de Letras, em Guarulhos, a nova rede conta com quase todos os aplicativos mais comuns encontrados nas suas semelhantes, permitindo que o usuário adicione amigos, crie grupos e álbuns de fotos, divulgue mensagens entre aqueles que estão em sua rede, visualizem os usuários que estão online e conversem com eles através de um chat. O sistema do site (aparentemente desenvolvido em XHTML com Java) também possuir integração com o twitter, botão de compartilhamento para outras redes e aceita a postagem de vídeos de forma simples e ágil (o vídeo tem que estar hospedado em outras plataformas, mas o sistema suporta a maior parte delas e basta postar o link do vídeo que ele se encarrega do resto). Com tudo isso, O Olho da Rua parece ser hoje o espaço virtual mais apropriados para a troca de ideias, de trabalhos e mesmo a organização de eventos coletivos entre artistas de rua brasileiros.

Mas como toda plataforma jovem, a rede O Olho da Rua também tem os seus problemas, alguns pequenos, outros mais preocupantes. Problemas técnicos, como códigos que surgem no lugar dos textos, imagens do layout que não carregam e mesmo o uso de fontes sem acentuação, atrapalham a navegabilidade, embora não comprometam a experiência por completo (vale deixar claro que só acessei a rede através das versões mais recentes e atualizadas do FireFox e do Google Chrome, baseados e PCs com sistema Windows). Talvez a ausência mais sentida, e provavelmente a falha no planejamento do sistema que mais chances tem de afastar os novos usuários, seja a de um mecanismo de ajuda, tanto de uma forma centralizada, com um FAQ e uma possível maneira de contactar os administradores, quanto em cada passo ao longo dos processos de cadastramento de usuário, criação e compartilhamento de conteúdo. Os criadores d’O Olho da Rua parecem ter assumido que todos os seus possíveis usuários seriam pessoas totalmente versadas e experientes no uso das tecnologias de redes sociais e que nunca precisariam de uma ajuda. Caso uma falta como essa não seja suprida, a rede corre o risco de perder vários possíveis usuários que não se sintam muito seguros ao tentarem fazer parte dela, ou que desistam de frequenta-la logo no início por não saber como utiliza-la.
Além dos problemas técnicos menores e dos problemas de arquitetura de navegação desassistida, há também a falta de certos elementos de universalização e integração da rede com o resto do ciberespaço que me parecem essenciais para o desenvolvimento de uma rede social bem sucedida. Considerando os fatos de que, em termos globais, grande parte da cena organizada da arte de rua se localiza fora da área de influência da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e de que mesmo o Brasil não é um dos membros mais interativos dessa comunidade, a simples ausência de versões em outras línguas (minimamente o inglês, mas se possível também o espanhol, considerando as vantagens de uma integração mais regional com nossos vizinhos) denota talvez um certo descuido com o enorme potencial comunicativo da web. Mesmo que a ideia seja restringir-se ao Brasil ou a CPLP, ainda falta também a presença em outras plataformas e espaços virtuais, como a criação de páginas e identidades para divulgação d’O Olho da Rua nessas outras redes (uma página no Facebook e uma id no twitter ou mesmo no identi.ca, se bem utilizadas, poderiam alavancar drasticamente o número de usuários da rede) e a parceria com blogs e sites do meio.

Por último (e ainda que esta seja uma consideração mais pessoal acredito que algumas observações sobre o tema podem ajudar os desenvolvedores d’O Olho da Rua a pensar algumas melhorias para os seus serviços) me parece faltar algum diferencial específico, algo que faço o usuário pensar “opa, mas isso eu não poso fazer em outra plataforma”, que não deixe a impressão de que é só mais uma senha para lembrar enquanto tudo o que é oferecido pode ser feito também em outras redes. Quem sabe a integração com um mecanismo open source de cartografia digital colaborativa, como o OpenStreetMap para que o usuário marque a localização geográfica de cada imagem publicada, semelhante ao que modelo do RedBullStretArtView (também criado por uma agência brasileira), mas mais personalizado em menos corporativo. (Bom, é claro que seriam possíveis várias outras inovações, mas isso foi o que pensei agora. De qualquer forma, fica a ideia).
Apesar desses pequenos defeitos, é impossível não levar em consideração também a importância e a força simbólica que tem o gesto fundador de criação dessa rede tão única e que busca projetar-se no espaço comunicativo da arte como um possível auxílio na organização desse enorme e anárquico coletivo formado pelas diversas manifestações da cultura e da arte urbana. Além de um excelente espaço de trocas e apresentação de trabalhos, O Olho da Rua pode se tornar também um importante espaço de organização de ações coletivas múltiplas, descentralizadas, geograficamente ampliadas. Basta que seus usuários se organizem. E como uma rede é formada principalmente por seus integrantes, eu recomendo a todos os leitores que façam como eu: cadastrem-se, publiquem suas fotos e vídeos, chamem seus amigos, divulguem em seus espaços, apresentem críticas construtivas, organizem ações coletivas e ajudem O Olho da Rua a crescer. Este espaço foi criado para o coletivo dos agentes da cultura urbana, e sua continuidade só vai ser viável se esse mesmo coletivo reconhecer o seu valor e assumi-lo para si. Por isso vamos lá, galera! Todo mundo para O Olho da Rua!
22/07/2011 | Categorias: Na Rede | Tags: cultura urbana, links, na rede, O Olho da Rua, rede social | Deixar um comentário »



