III Ato Poético

A partir desta sexta, 25 de março, a Fundação Casa do Estudante Universitário do Paraná, também conhecida carinhosamente como CEU, promove o III Ato Poético, evento que se propõe a articular espaços para discussões sobre processos que estão alterando de forma significativa a relação da população com a cidade e a forma como ela produz, acessa e consome cultura.
Temas como arte urbana, projetos de intervenção urbana, audiovisual, violência e intolerância, teatro, políticas públicas para a cultura, movimentos estudantis, música autoral, mobilidade, acessibilidade e transporte público serão pauta de debates, práticas e reflexões. Estudantes, professores, ativistas, artistas, intelectuais, associações, sindicatos, movimentos populares, casas de estudantes e movimentos de representação estudantil estarão se reunindo nestes cinco dias para participar de palestras, mesas-redondas, oficinas, performances, apresentações culturais e exposições artísticas.

O artista-plástico e músico Orlando Muzca e o produtor e artista-plástico Juliano Grus, que participaram de meu documentário Urbanographia Digitalizada de Baixa Resolução – versão beta, fazem parte da produção do evento e estarão também ministrando oficinas, o primeiro de pintura livre nos tapumes frontais do prédio em reforma e o segundo de Flip Book.
E no dia 28, segunda-feira, às 21h, será realizada na Biblioteca da CEU, no térreo do edifício, a Mostra CAZé/CINETV, com filmes que abordam a temática urbana realizados pelos alunos do curso de Cinema e Vídeo da CINETV PR/FAP.
Fruto da mobilização voluntária de moradores e ex-moradores, artistas, colaboradores e da sociedade civil organizada, o Ato Poético é uma produção independente que não conta com recursos oriundos de entidades públicas, empresas e instituições político-partidárias. Ele acontece entre os dias 25 e 29 de março no prédio da Fundação Casa do Estudante Universitário do Paraná (CEU), que fica na Rua Luiz Leão 01, entre o Colégio Estadual do paraná e o Passeio Público de Curitiba. Para conhecer a programação e saber mais sobre o evento, visite o site do III Ato Poético.
Urbanographia, o curta

O projeto Urbanogramas estréia contando a estória da obra que deu nome ao blog, o documentário Urbanographia Digitalizada de Baixa Resolução – versão beta. Filmado por uma equipe de cineastas amadores em 2005, o curta tenta retratar algumas visões sobre a cena da arte de rua curitibana, concentrando-se especialmente em artistas que utilizam o lambe como principal forma de expressão.
Selecionado em festivais e mostras por todo o país e exibido por canais da TV aberta e paga, o filme acaba de completar cinco anos da sua primeira exibição. Conheça abaixo um pouco mais de sua história.
A IDÉIA
Embora tenha sido gravado em setembro de 2005, o curta Urbanographia foi concebido pela primeira vez em julho de 2003, na ocasião em que realizei minha última intervenção em larga escala na cidade de Antonina durante o 13° Festival de inverno da UFPR. Tendo me envolvido com as mais diversas manifestações artísticas ao longo de minha trajetória, transitando entre a pintura e a ilustração, a poesia, a intervenção urbana e a fotografia, aquela foi a última ocasião na qual minhas intervenções poéticas seriam confrontadas com o público (ainda que eu não fizesse a menor idéia disso na época). A partir do ano seguinte, toda a minha energia seria dedicada ao audiovisual e suas diversas manifestações.
Mas ainda que não executasse mais intervenções no espaço urbano, a paisagem da cidade e os infinitamente variados urbanogramas que a habitam nunca deixaram de fazer parte de meu horizonte de reflexões. Era impossível para mim (como ainda é até hoje) transitar pela cidade sem dedicar boa parte de meu olhar a observação dos grafites, stencils, lambes, stickers e todo o tipo de intervenções oferecidas pelos muros, postes, placas de trânsito e outros inúmeros espaços presentes no meio urbano. A localização, o material utilizado, a escolha do objeto de intervenção, a mensagem. Frases de efeito, palavras de ordem, símbolos anarquistas, anti-fascistas, nazistas, feministas, logomarcas famosas e celebridades desconstruídas, Bush, FHC e Che Guevara, silogismos, paralogismos e neologismos. A anti-topologia antropológica do urbano, onde cada objeto difere infinitamente do outro, por maiores que sejam suas relações de semelhança.
Assim, quando em 2005 surgiu a oportunidade acadêmica de realizar um documentário, fui tomado pela idéia do Urbanographia. Com uma equipe reduzida (inicialmente com cinco membros, mas que se reduziria a três ainda antes das filmagens), composta por mim e por meus colegas Alexandre Maichrowicz e Millie Panichi, o projeto fazia parte da formação em cinema pela Academia Internacional de Cinema, cuja sede a época se localizava em Curitiba. Era a oportunidade de retomar minhas observações utilizando agora uma linguagem que sempre me atraira, a oportunidade de lançar um olhar inicial sobre a arte e o urbano que poderia servir como plataforma para futuras observações (visão que inspirou o subtítulo versão beta).
A PRÉ-PRODUÇÃO
Como a realização de minhas intervenções sempre foi um processo solitário, comecei buscando por artistas que estivessem dispostos a serem entrevistados, processo no qual o amigo Juliano Grus foi imprescindível. Através dele estabeleci contato com os integrantes do coletivo Interlux Arte Livre, que formaram a base principal dos depoimentos do núcleo dos artistas. Jovens, conscientes e comunicativos, Muzca, Olho, Dimax e Parada foram também os artistas que ajudaram a organizar e levar a termo a maior parte das ações de intervenção, realizadas exclusivamente para o filme e gravadas durante o feriado da independência daquele ano. Além disso, Muzca se propôs a criar uma composição musical para o filme, idéia que foi imediatamente aceita e assimilada no projeto. Jack Rocha, amigo de longa data, me apresentou a A. B. Ducci, o Anatomista, outra presença importante no filme, pois eu sempre apreciara muito suas intervenções.
Mas eu também queria descortinar visões mais amplas, conhecer alguns dos discursos indiretos sobre essa arte, as vozes acadêmicas. Foi também Juliano Grus quem me indicou a Manoel Neto, que me passou o contato de alguns nomes essenciais para o curta: a historiadora e professora de História da Arte Elisabeth S. Prosser (também indicada pelo pessoal da Interlux) e a antropóloga (na época ainda graduanda) Dayana Zdebsky. Posteriormente, Dayana me forneceu o contato de Paulo Reis, professor de História da Arte Contemporânea e último elemento a compor o núcleo dos acadêmicos.
Tendo como objetivo principal a realização de um exercício acadêmico, o planejamento das gravações de Urbanographia apresentaram duas limitações básicas: o tempo e o equipamento. Como tinhamos um prazo de entrega determinado e só podíamos dispor do equipamento da AIC por dois finais de semana, o cronograma foi elaborado de forma que pudéssemos captar todas as entrevistas e as ações de intervenção nos poucos dias em que estivéssemos como equipamento em mãos. Após algumas conversas com as personagens e com meus colegas de equipe, Alexandre e Millie, elaborei as pautas e as entrevistas foram marcadas.
Com isso encaminhado, estava no momento de começar a gravar.
REGISTRANDO URBANOGRAMAS
Na maior parte do tempo, as gravações de Urbanographia foram como uma extensão de minhas observações sobre o meio urbano, mas com um olhar mais direcionado, filtrado pelo olho da câmera, cheio de chicotes e zooms. Embora estivéssemos limitados pelo uso agendado dos equipamentos da AIC, minha visão do filme como um mosaico em mutação me apontava para outros caminhos.

Logo de início, optei pelo uso de uma câmera de menor qualidade como segunda câmera, utilizando minha JVC caseira para realizar registros de urbanogramas e da cidade nos dias em que não teria o equipamento principal em mãos. Com isso pude não só reduzir o uso deste equipamento como também imprimir uma componente essencial para o curta: a câmera subjetiva, incerta, tremida, imprecisa, desafiando o espectador a observar este mundo com novos olhos. Nas semanas anteriores às entrevistas, captei diversas imagens da paisagem urbana e de suas intervenções, percorrendo a cidade em diferentes dias, horários e climas. Posteriormente, essa mesma câmera foi utilizada durante a captação das ações nas ruas.

Para operar o equipamento principal em contava com Alexandre Maichrowicz, que realizou também a fotografia do curta, e Millie Panichi, que além de fazer a captação de áudio durante as entrevistas foi uma excelente assistente de edição. O uso desse equipamento foi dividido em três etapas: 1 – a captação de imagens urbanas e intervenções presentes na paisagem, que seria realizado ao longo do dia, antes e depois das entrevistas; 2 – as entrevistas em si, com duas ou três marcadas para cada dia; e 3 – o registro da ação de intervenção.
Propositadamente, escolhi captar as entrevistas dos artistas a noite e as dos acadêmicos durante o dia. Buscando ressaltar ainda mais as diferenças de discursos e perspectivas, orientei Alexandre para que a câmera que captase os artistas se comportasse de forma radicalmente diferente da câmera dos acadêmicos. Como nos registros da cidade, fizemos todas as gravações dos artistas com a câmera na mão, questionadora, atenta aos detalhes, framentária. Respeitamos os artistas que preferiram o anonimato, invadimos o espaço dos que não se incomodavam em se expor. Já a câmera que registrou os acadêmicos era mais contida. Gravamos as entrevistas com a câmera no tripé, evitando uma maiores alterações no quadro e mantendo o foco no rosto dos entrevistados.

Nos últimos dois dias, gravamos a execução das intervenções. Encontramos os artistas da Interlux no início da madrugada. Com as duas câmeras nas mãos, acompanhamos o grupo e seus companheiros enquanto eles nos apresentavam a diferentes ninhos e espaços de intervenção recorrentes, colando seus lambes e aplicando máscaras de stencils pelos muros da cidade. Em poucas horas percorremos grande parte do centro registrando a arte de rua em ação. No dia seguinte, nos encontramos com o Anatomista A. B. Ducci, que atua sozinho, para gravarmos algumas de suas intervenções, desta vez diurnas. Estas foram as últimas imagens gravadas.
Era hora de editar o curta.
A PÓS
Como a grande quantidade de material que tínhamos exigiria muitas horas para ser montado, decidi não utilizar o equipamento da AIC, já que ele só podia ser usado em horários específicos e limitados. Assim, as fitas foram todas capturadas em minha casa, onde a primeira edição do filme foi realizada integralmente. Na primeira primeira fase desta edição Millie me ajudou a transcrever todas as falas e separar as imagens pertinentes. Depois de alguns dias assistindo repetidamente cada fita, a decupagem do material foi terminada. Pela primeira vez pude visualizar o filme que tinha em mãos.

Observando aquelas imagens e falas, me dei conta de como os discursos ali apresentados se diferenciavam. Muitas das falas acadêmicas pareciam distantes da verdade apresentada pelos artistas, e vice-versa. Partindo disso, resolvi separar os dois grupos em blocos distintos, com planos, ritmos e sonoridades que tornassem essa separação ainda mais evidente, como se cada um estivesse operando em uma sintonia diferente do outro, ainda que convergentes.
Nesta fase, em que o ritmo do corte estava começando a ficar claro, passei a buscar também uma trilha musical que estivesse de acordo com o que desenvolvíamos. Desde o início da pós-produção já tínhamos em mãos a música composta por Muzca, um dos artistas que entrevistamos, e parte da edição já estava sendo feito tendo o seu ritmo como base. Mas o filme ainda precisava de outras sonoridades, algo que remetesse a0 coletivo e ao ancestral, estranho ao universo dos artistas mas comum a todos. Como o nosso prazo de entrega do filme estava quase no fim, selecionei naquele momento a versão Live In Timbuktu de Win My Train Fare Home, música de Robert Plant que, para evitar problemas legais, seria substituída na segunda e última versão do filme, finalizada no início de 2006.

Após a inserção das músicas, alguns ajustes no corte e a colocação dos créditos finais, o filme estava pronto para sua primeira exibição, realizada pela Academia Internacional de Cinema em dezembro de 2005, no Er Só o Que Fltv. Depois desse exibição, o filme ainda passaria por algumas adaptações na sequencia de abertura e, principalmente, na escolha da música que substituiria a canção de Robert Plant na última sequencia. Após uma busca no cenário local, encontrei o que queria na sonoridade do grupo Bayaka. Dando continuidade à tradição iniciada pelo grupo Terra Sonora, o Bayaka é um grupo de música étnica formado por mais de vinte músicos. Na época, meu irmão era uma das vozes masculinas do grupo. Com a autorização do maestro Plinio Silva, selecionamos Beyarmak, uma música de aborígenes australianos para completar o som do curta.
Agora sim o filme estava pronto para ir pra rua.
LANÇAMENTO E EXIBIÇÕES

Após sua exibição inicial para os alunos da AIC, Urbanographia foi exibido também em eventos de arte de rua, cineclubes e outros espaços alternativos. Foi apenas depois de algum tempo que comecei a inscrever o filme em mostras e festivais. A partir de então, o curta seria selecionado para vários deles, incluindo o Santa Maria Vídeo e Cinema, no Rio grande do Sul e a Mostra do Filme Livre, no Rio de Janeiro.
Ainda assim, o lançamento oficial do filme em sala de cinema só aconteceria em agosto de 2007, também com a ajuda de Juliano Grus, que articulou os principais contatos para o evento. A exibição ocorreu na Cinemateca de Curitiba e, devido a lotação da sala, foram necessárias duas sessões para que todos pudessem assistir. Logo depois, a festa de celebração do lançamento ocupou o Porão Rock Club, com as bandas Xmáquina, Zigurate, Zirugdun Pfóin e o DJ Muzca agitando a galera.
Depois do lançamento, o filme ainda circulou por diversos espaços, como o Festival Tribaltech e a Mostra de Cinema de Ouro Preto, tendo sido exibido também pelo Curta.doc da SESCTV e pela TV Comunitária de Curitiba. Publicado também no YouTube e no Vimeo, o curta já atingiu mais de 1500 visualizações na internet.
PENSANDO O CURTA, E ALÉM
Embora o resultado final tenha sido bastante satisfatório, percebi desde o início que o filme não realizaria plenamente as minhas aspirações. Talvez um dos elementos mais evidentes desta incompletude seja a quase ausência das vozes de oposição, embora a presença do transeunte Niwton Zaruch tente minimizar isso. Infelizmente, devido à falta de tempo, não foi possível colher outros depoimentos semelhantes. Ao revisitar o filme cinco anos depois percebo ainda que muitos dos elementos contidos no filme poderiam ser reorganizados, evitando o excesso desnecessário de falas concatenadas e permitindo a narrativa respirar um pouco. Sobram discursos, faltam planos contemplativos. A cidade, personagem principal, difusa e indistinta, surge intensa, mas com menos força do que eu havia planejado.
Desde o início, ciente de minha imaturidade como documentarista e do processo apressado em que o filme se realizou, eu já tinha consciência de que o filme seria mais um esboço do que uma obra terminada. Sempre tive a intenção de retomar o projeto para levá-lo adiante. Em parte, o Projeto Urbanogramas é um dos resultados dessa intenção. Aqui, além da história do curta e de minhas reflexões sobre a arte de rua, publicarei alguns materiais extras, imagens e falas dos entrevistados que não chegaram a ser incorporados ao curta devido a limitação de tempo imposta pela AIC (os projetos podiam ter até 15 min.). Além disso, estou trabalhando atualmente com a possibilidade de gravar uma versão nova e definitiva do filme, com 48 minutos.
Inevitavelmente, refletir sobre o Urbanographia me incentivou também a retomar os meus processos de intervenção urbana. Para comemorar este retorno, estou preparando uma nova leva de lambes e stencils, que também serão publicados aqui. Fique ligado nos próximos posts.




